A religiosidade está presente em cada expressão da cultura gastronômica de Minas Gerais. O Santuário Nossa Senhora da Piedade, casa da padroeira do estado, talvez seja um dos locais onde a união entre fé e comida pode ser apreciada de forma mais evidente.

Há 60 anos, um delicioso queijo é curado em uma caverna nas encostas da ermida. Quem começou a tradição foi frei Rosário Joffily, que dedicou sua vida ao santuário. Nos idos de 1950, ele comprava queijos frescos e maturava por conta própria na pequena lapa.

O frade dominicano viu que o clima úmido do alto da Serra da Piedade, uma formação rochosa de 1746 metros de altitude no Território Central, permitia a criação de uma crosta de fungos que dava um sabor inigualável à iguaria. O queijo passou a ser vendido aos visitantes do local, que atrai turistas e peregrinos de todo o Brasil.

Com a morte de frei Rosário, a produção de queijos foi interrompida. A caverna ficou fechada por quase uma década. Mas, há seis anos, os funcionários decidiram tentar novamente. Eles temiam não conseguir reproduzir o queijo, já que não havia sinal dos fungos. Mas deu certo.

“Dentro de um armário onde ficavam os panos que o frei usava para por embaixo dos queijos, ainda tinha fungo. Começamos a fazer e não paramos mais. Graças a Deus tem muita procura dos visitantes, não sobra nada”, conta Lucas Teixeira, funcionário do santurário há 17 anos.

Hoje, o queijo fresco é comprado dos fazendeiros da Serra da Canastra, na região dos Lagos da Mantiqueira. O toque picante - e ligeiramente ácido - do Queijo Frei Rosário fica por conta das 46 culturas de fungos que atuam por 60 dias na massa (sempre macia) que chega da Canastra.

“O processo é mais rápido quando está mais úmido. O tempo frio também é importante. O queijo matura melhor. Todo dia a gente vai lá, troca os panos que ficam por baixo e vira os queijos. Tem que ser todo dia mesmo, para o queijo ficar bem firme”, explica Lucas.

Delícia inspirada na realeza

Quando Dom Pedro II e sua esposa Tereza Cristina visitaram a província de Minas Gerais em 1881, ficaram surpreendidos com o sabor da rosca preparada com goiabada, iguaria típica do Território Central, produzida nas fazendas no entorno do santuário.

Encantada com a hospitalidade mineira e com os cafés coloniais, a imperatriz fez um elogio especial a essa quitanda, que leva doce de leite na massa e creme de manteiga na cobertura. A partir daí, o quitute ficou conhecido como Rosca da Rainha e passou a ser oferecido aos romeiros que visitam o santuário. A receita centenária dá água na boca. Vale a pena conferir.