Dez anos após se dispor a radiografar as feições e relações do mundo moderno antecipadas por três clássicos da literatura mundial, o grupo Giramundo de bonecos mostra sua mais recente realização: “Aventuras de Alice no País das Maravilhas” estreia hoje, quinta-feira (11), no Teatro Bradesco, onde permanece até domingo, sempre às 20h.

Concebida anos antes da “outra febre de Alice”, inoculada pelo longa metragem de Tim Burton (2011), a versão do Giramundo também absorve contribuições de tecnologia e as estratégias recém-adotadas pelos megaespetáculos. Como já acontecia em “Pinocchio”, de 2005, e em “Vinte Mil Léguas Submarinas”, de 2007, títulos anteriores da trilogia. Ou seja, o grupo buscou obras inestimáveis do século 19 para sublinhar mazelas da atualidade.

Para materializar sua “Alice”, o Giramundo se serviu de permissões técnicas do teatro, que autorizam bonecos a contracenarem com o ator Beto Militani como Lewis Carroll, o matemático e romancista inglês que escreveu a epopeia nonsense da garota arrastada a um habitat hiper fantástico. Do cinema, a encenação sofistica projeções com enquadramentos e closes. Dos shows, agregou a performance do áudio, acréscimo de microfones e uma trilha sonora original de John Ulhoa, do Pato Fu.

Uma armadilha

Se apropriar de tecnologias não seria o objetivo em si. Em vista da “vulgarização tecnológica”, que libera recursos cinematográficos num simplório modelo de celular, o desafio das artes seria de ordem estética, qual linguagem propor, avalia Marcos Malafaia, um dos diretores do grupo e do espetáculo.

Por isso, a aparência “alegre, pop, colorida e feliz” que “Alice” adquire durante 1h20 seria “uma armadilha” a quem só pretenderia “sair do teatro com um semblante tranquilo”. Implícita, a intenção é que ela “toque a tela do iPad, do iPhone e as lentes dos óculos de 3D permanentes. E revelem os simulacros das sensações. Inquiete quem troca prazeres reais – mas expostos ao suor, à fumaça, aos maus odores – por “águas cristalinas de bites, águas da Samsung”.

Uma década de muito trabalho, até na TV

O Giramundo nunca produziu tanto como nos últimos dez anos, garante Marcos Malafaia. Neste período, trouxe à tona sua “trilogia do Mundo Moderno” e quatro montagens da série “Mini Teatro”; dois livros e três exposições; centenas de sessões do seu vasto repertório; participou de duas séries de TV (uma sobre mitologia grega, ainda sem data de exibição) e de um show do Pato Fu.

Uma década de muito trabalho, graças às leis de incentivo, embora coincida com as ausências de Álvaro Apocalypse e Madu, fundadores do grupo. Neste retorno, o patrocínio da Petrobrás garantiu as apresentações da trilogia e a parceria com o Teatro Bradesco (recém inaugurado no  Minas Tênis 1) permitiu que “Pedro e o Lobo”, dos anos 90, e “Um Baú de Fundo Fundo”, dos 70, também fossem vistos novamente.

Inesquecível para quem o conhece, o “Baú” está em cartaz nestes sábado e domingo, às 16h. É essencialmente voltado ao público infantil, ao contrário dos espetáculos da trilogia. Embora todos estimulem as fantasias do público, jamais soneguem criatividade e senso estético.

Após a temporada de estreia, “Alice” – a quem Fernanda Takai empresta a voz e Arnaldo Baptista (Mutantes) ao Chapeleiro Maluco – tem agenda no Rio (maio), São Paulo (junho) e em capitais do Centro-Oeste (setembro), pelo Sesi Bonecos. Datas nas capitais nordestinas não estão definidas.