Após um período “sabático”, como ele mesmo define o primeiro trimestre passado na Espanha, onde fez um trabalho de imersão na música barroca, o cantor e compositor Guilherme Arantes, dono de inúmeros sucessos nos anos 70 e 80, inicia a sua turnê brasileira por Belo Horizonte, a partir desta sexta-feira.
 
A apresentação no Grande Teatro do Palácio das Artes é vista pelo hitmaker como um esperado reencontro. Não só pelo local (“um dos espaços mais sagrados do Brasil”, elogia) como também pela cidade que sempre o recebeu muito bem. “É  uma emoção tocar em BH. É um ambiente muito musical, muito favorável ao meu som”.
 
No repertório, não podem faltar, claro, “Planeta Água”, “Cheia de Charme”, “Deixa Chover”, “Amanhã”, entre outras que fizeram de Arantes um campeão em arrecadação de direitos autorais. “Teremos as famosas e algumas do lado B. Meus últimos discos são bons, criei um selo próprio e acredito que firmei pé na maturidade”, avalia.
 
Para ele, é uma vitória chegar a este ponto de evolução após a transformação ocorrida no mercado nos anos 90. “A música mudou radicalmente e perdurar é uma batalha. Passei por muitos períodos nestes 43 anos de carreira. Nem todos foram virtuosos ou fáceis. A minha geração sentiu muito a chegada de uma competição marqueteira”, compara.
 
Mergulho
Feliz pela boa receptividade que a sua música vem obtendo no continente europeu, com apresentações em Madri (Espanha) e Copenhague (Dinamarca), Arantes salienta que a passagem pelo Velho Mundo teve como principal objetivo “mergulhar numa viagem rumo ao século 17”, por considerar que tem uma “raiz muito forte na música barroca”, citando Bach, Händel, Purcell e Debussy. 
 
“A música antiga me fascina e aproveitei para fazer uma imersão de tempo e espaço diferentes para este começo de 2019”, justifica o compositor. Também pesou na balança para mudar de ares o momento político conturbado no país, ajudando a “abrir um pouco a cabeça e fugir do ambiente tóxico da discussão brasileira”.
 
Ele diz que voltou mais relaxado, com mais humor para enfrentar “a grande prisão que vivemos”. Arantes não tem dúvidas de que passamos por uma época de empobrecimento, “a ponto de se gabar pela falta de caráter”. “É uma coisa inédita na história da humanidade, em que tudo é relativizado por esta cortina da realidade virtual”, analisa.
 
Produção pífia
Nesta “cultura de pensamentos esparsos, pequenos e afônicos”,  Arantes lamenta que qualquer dupla sertaneja toque para mais pessoas do que os Beatles em toda a carreira deles. “Vivemos uma era em que prevalecem os números estratosféricos, a quantidade de visualizações. A produção cultural é pífia, mais baseada na forma, no sensorial, do que na letra, na melodia ou no conteúdo”.
 
Ele recorda que, aos 14 anos, correu para casa de amigos ouvir “Stairway to Heaven”, de Led Zeppelin, assim que saiu o LP. “Nossos valores eram outros. Nós buscávamos a beleza e a transformação do mundo. Hoje privilegiam o escândalo, o comentário, a reverberação social que as coisas provocam. Tudo é basicamente falso”, critica.
 
Serviço:
Show Guilherme Arantes e banda – Nesta sexta, às 21h30, no Grande Teatro do Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1537). Ingressos: Plateia I (R$ 180), Plateia II (R$ 120) e Plateia Superior (R$ 100).