Rodolfo Vaz levanta o olhar e, ao ver Helvécio Ratton sentado numa cadeira próxima, preparando a cena que seria logo mais filmada, aumenta a voz para dizer que só recebeu do diretor “papéis pequenos” nos longas-metragens em que trabalharam juntos. O comentário não passa despercebido. “Esse personagem é muito importante no filme!”, ressalta o cineasta, sem ser contestado.
 
A sequência anterior, em que o personagem de Vaz visita o colega de trabalho doente, vivido por Eduardo Moreira, não deixa dúvida. No monitor instalado na sala ao lado, de onde o cineasta acompanha a filmagem e dá os comandos de “ação!” e “corta!”, vemos o ator fazendo ameaças para ter acesso a um importante relatório da firma, só saindo do apartamento ao conseguir a senha de computador.
 
Helvécio Ratton é um dos principais nomes do cinema mineiro, tendo assinado filmes como “Menino Maluquinho”, “Amor & Cia” e “Batismo de Sangue”
 
Na verdade, não se trata de um apartamento. Mas sim de uma casa de três andares, no bairro Gutierrez, que estava para ser demolida e agora serve de cenário para a residência do protagonista de “O Lodo”, novo longa de Ratton baseado em conto do escritor mineiro Murilo Rubião. O local recebe aquelas que serão as cenas finais da história, definida por Ratton como um terror psicológico com humor negro.
 
A não ser por dois caminhões na porta, carregados de equipamentos, ninguém diria que ali, durante seis dias, um filme estava sendo rodado. Dentro da casa, nenhum traço daquela tensão que costuma reinar em sets. Nem mesmo quando o barulho de uma moto passando na rua vaza no áudio captado em cena. Portas e janelas são fechadas para abafar outros sons vindos de fora.
 
Na claquete, lê-se 92-4, que é o número da sequência que está sendo filmada. Inês Peixoto, esposa de Moreira e também integrante do grupo de teatro Galpão, está de pé ao lado da parede, acompanhando a cena. Ela interpreta uma mulher que mora no apartamento, com o filho (Cláudio Márcio). “É um roteiro incrível, que trata da culpa dentro do universo de realismo fantástico de Rubião”, observa.
 
Apesar de reclamar da falta de papéis maiores, Vaz é só elogios a Ratton, um diretor que, segundo ele, sabe bem o que quer em cena, sempre ajudando o ator na construção do personagem. “Quando quer nos dizer algo, chega perto da gente e fala. Não é daqueles que gritam no set”, ressalta o ator, que já havia trabalhado com o cineasta em “Uma Onda no Ar”, “Pequenas Estórias” e “O Segredo dos Diamantes”.
 
Os dois atores ressaltam a importância de fazer um filme num momento em que os investimentos em cultura no país estão sendo drasticamente reduzidos. “Feliz por ver um projeto como esse sobreviver a este momento de dificuldade”, afirma Inês. Para Vaz, é um trabalho de resistência. “Não é mamata. Trabalhamos muito. O que fazemos gera centenas de empregos”, salienta.
 
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Entre uma cena e outra, Helvécio Ratton conversa com o diretor de fotografia Lauro Escorel

 
Longa é terror psicológico com pitadas de humor negro
 
Para Helvécio Ratton, o texto de “O Lodo”, publicado em 1974 no livro “O Convidado”, é o mais diferente dentro da obra de Murilo Rubião. “Não é um realismo fantástico maravilhoso, mas sim um absurdo kafkaniano”, registra o cineasta.
 
A semelhança com os livros de Franz Kafka, autor do clássico “A Metamorfose” se dá pela maneira como, de acordo com Ratton, ele adiciona o elemento absurdo com naturalidade no cotidiano dos personagens.
 
E essa abordagem foi seguida à risca pelo realizador. “Se você trata estas situações dentro do contexto do absurdo, acaba perdendo força. Ganhamos força exatamente pelo contexto realista”, salienta Ratton, que escreveu o roteiro ao lado de L. G. Bayão.
 
O diretor observa que é difícil arrancar uma classificação muito estreita da narrativa em relação a qual gênero pertence. Basicamente, diz ele, é um terror psicológico, mas que “tem um humor negro que perpassa a história que é maravilhoso”.
 
O filme faz parte de um grande mergulho do realizador mineiro na obra de Rubião, iniciado há quatro anos. Nesta época, ele roteirizou 13 dos 33 contos para se transformar numa série de TV, que não foi para frente devido ao alto custo de produção. “Quem sabe agora o filme não reabra esta possibilidade”, anseia.
 
Outro cineasta que está trabalhando com a obra de Murilo Rubião é Éder Santos, que adaptou o conto “A Casa do Girassol Vermelho”
 
O elenco é formado praticamente por atores mineiros, decisão tomada por Ratton que foi motivada pela característica da própria obra. “É uma história muito mineira, belo-horizontina, posso dizer. Embora Rubião tenha nascido no sul de Minas, a fase escritor dele aconteceu aqui”, registra.
 
A primeira semana de filmagem não foi fácil, após a saída do ator Leri Faria no terceiro dia. Ele caiu no banheiro e, no hospital, ao fazer uma tomografia, foi diagnosticado um tumor cerebral. “Foi um baque tremendo”, assinala. Desde então hosptalizado, Leri veio a falecer na noite do último sábado.
 
O cineasta conta que já percebia uma certa dificuldade de Faria durante o trabalho. “Mas acreditava que era uma dificuldade natural, pelo esforço que estava fazendo, por não ter feito antes um trabalho com o nível de exigência que a gente tem”.
 
Mario Sergio Camargo foi chamado para fazer substituição, já entrando no set no dia seguinte. “Passei meio de supetão as coisas do personagem por telefone. Rapidamente ele entrou no tom, virando o personagem no segundo dia”, destaca Ratton.