Setenta e seis mil reais. Esse valor representa, para o diretor mineiro Sávio Leite, a diferença entre fazer um filme “do jeito que dá” e uma “superprodução”, podendo pagar equipe e ter dinheiro para comprar os direitos autorais de um texto erótico de Hilda Hirst, do livro “Bufólicas”.

O orçamento mais polpudo não só garantiu qualidade ao curta de animação “Vênus – Filó, a Fadinha Lésbica” como também ajudou a cimentar o caminho em direção ao prestigiado Festival de Cinema de Berlim, que anunciou o filme entre os selecionados da mostra “Panorama”.

A escolha põe Minas no centro do boom da animação brasileira, após as premiações de “História de Amor e Fúria” e “Menino e o Mudo” em festivais importantes. E exibe uma ousadia que deverá chocar muitos espectadores, como mesmo frisa Sávio, que viu desenhistas recusarem a trabalhar no filme.

“Fiquei impressionado. Alguns diziam que fariam uma animação sobre assédio sexual. Há cenas explícitas, que não são papai-e-mamãe, mas não é um filme pornográfico. Será o momento para discutir os limites entre a arte erótica e a pornografia”, afirma Sávio, que é um grande fã de Hilda Hirst.

O 67º Festival de Cinema de Berlim será realizado de 9 a 19 de fevereiro, na Alemanha. Participam 12 produções brasileiras. “Vênus” é a única de origem mineira

O que mais lhe interessa na escritora é o fato de ela fazer parte de uma cultura outsider. “Ela foi contra o casamento, teve vários amantes e brigou com a Prefeitura de Campinas ao não pagar o IPTU, quase perdendo a sua casa. É uma figura torta dentro da cultura brasileira, embora festejada”, analisa.

No caso do texto que deu origem ao filme, o cineasta destaca que ele tem tudo a ver com o momento atual, sobre o respeito às diferenças, às desigualdades. “Fala da hipocrisia da sociedade, que faz tudo às escondidas”, detalha Sávio, que convidou a atriz e diretora Helena Ignez para fazer a narração.

“Tinha que ser narrado por uma mulher. E sou fã de Helena desde ‘Pátio’, ‘Mulher de Todos’ e ‘O Bandido da Luz Vermelha’. Ela é a atriz viva mais f..* que tem na história do cinema brasileiro. Fiquei muito feliz por ela ter aceitado. Gravou a narração em São Paulo, sem romantismo. Ela é mestra!”, elogia.

O projeto começou em 2009, mas só ganhou sinal verde em 2014, quando foi um dos vencedores do programa de incentivo estadual Filme em Minas. “Com esse dinheiro, consegui pagar os direitos autorais. Não eram muito caros, mas os detentores jamais iriam ceder de graça”.

Rotoscopia

Em “Vênus – Filó, a Fadinha Lésbica”, Sávio Leite adotou um processo chamado rotoscopia, dispositivo que permite redesenhar quadros de filmagens para ser usado em animação.

As imagens usadas pelo cineasta mineiro no curta foram extraídas da internet e são gifs (formatos geralmente adotados como emoticons e para ilustrar sites), de teor erótico.

“Hoje vivemos um culto ao gif, que nos remete aos primeiros experimentos de animação, pegando uma sequência de fotos e fazendo uma espécie de looping”, compara Sávio.

O diretor destaca que não falta qualidade à animação brasileira, que só precisa ser uma indústria para se equiparar a outros países. Mas ele critica o olhar torto com o gênero.

“Nossos filmes não vão aos principais festivais do país, que não têm categorias para animação. Quando entram, é na categoria infantil. Não existe um reconhecimento como há para a ficção e o documentário”, pondera.