“É um livro para quem gosta tanto da música do Planet Hemp quanto da questão da legalização da maconha ou somente de boas histórias. Um livro verdadeiro, que conta uma história muito interessante, e que vai servir de fonte de pesquisa para outros livros que virão”. O resumo é do jornalista e escritor Pedro de Luna, que assina a biografia “Planet Hemp: Mantenha o Respeito” (Belas Letras). A obra – que traça uma cronologia da banda em texto e fotos – será lançada neste sábado (9), em Belo Horizonte, na Livraria Quixote.

Conterrâneo e amigo da banda de longa data, o autor conta que desde a década de 1990 escreve sobre rock independente e, ao longo dos anos, foi acumulando muito material sobre o Planet Hemp. “O Planet era um grande orgulho para todos nós, pois representava uma banda do underground carioca que conseguiu se projetar nacionalmente”, sublinha. “Sempre surgia a ideia de escrever sobre eles, mas precisei tomar uma dose de coragem, porque é uma banda muito controversa, polêmica. Até eles mesmos têm contradições e eu sabia que poderia haver ‘tretas’”, continua Luna. “Mais que isso, não é fácil levantar uma pesquisa sobre o Planet Hemp, porque não havia quase nada na internet sobre o período áureo deles, nos anos 90”. 

Após juntar materiais como fotos, flyers e reportagens, o escritor passou para a etapa das entrevistas, quando conversou com todos os integrantes e ex-integrantes da banda, além de amigos, parentes, fotógrafos, produtores e jornalistas. “A primeira parte foi juntar as peças do quebra-cabeça para montar uma cronologia. “Depois, fiz dezenas de entrevistas”.

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Foto da formação do terceiro disco da banda, "A Invasão do Sagaz Homem Fumaça", de 2000

Legado e perseguição

Entre os episódios que costuram a história estão cenas de perseguição policial e jurídica à banda – a primeira a apoiar publicamente a legalização da maconha, levantando o debate nacionalmente. “Acho que o pior de tudo é que a repressão se estendia aos fãs da banda. Em várias apresentações não só os músicos eram penalizados, mas o público também”, afirma o autor, contando que uma das cenas aconteceu em Belo Horizonte, um dia antes da fatídica e famosa prisão da banda em Brasília, em 1997.

“Eles foram tocar em BH, mas o show foi cancelado. Então, foram para uma balada no Studio Bar e, no meio da noite, a polícia cercou o local, deteve os músicos e os levou para averiguação. Não acharam nada, mas deram uma canseira na rapaziada, que passou a madrugada inteira numa delegacia que nos anos 80 era conhecida como ‘Inferno da Lagoinha’. Saíram de manhã, cansados, e pegaram estrada para Brasília. Descansaram para o show e, à noite, foram presos”, conta Luna. 

Para o autor, além do grande legado musical, a banda abriu caminhos ao tocar num assunto tão espinhoso. “As músicas do Planet que tangem a luta pela legalização da maconha ainda são muito atuais”, afirma, citando “Não Compre, Plante” e “Legalize Já”. “Indo além da maconha, a própria música ‘Mantenha o Respeito’ também traz um discurso muito atual, porque não diz só sobre respeitar o usuário da cannabis, mas respeitar o próximo, independentemente do gênero, da cor, da classe social”. 

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A capa da biografia "Planet Hemp: Mantenha o Respeito", de Pedro de Luna

Confira entrevista:

Sobre o começo da história, como você percebe a importância de Skunk na formação da banda e da identidade artística de D2? O Skunk é a sementinha inicial, sem dúvida. Um cara muito interessante, que teve um reconhecimento tardio, no filme "Legalize Já" (lançado em outubro do ano passado). Ele era um visionário, bem camaleão, mudava de visual e de gosto o tempo todo. Um cara que não tinha dinheiro, que não sabia falar inglês, mas que ficava na banca de jornal vendo as revistas internacionais e anotando nomes de bandas para pedir aos amigos mais abastados para comprarem os discos. Ele viu o Cypress Hill numa revista e ficou impressionado, um grupo de rap falando sobre maconha. E quis fazer uma banda parecida. O D2 diz, na entrevista para o livro, que muito antes de ter o nome Planet Hemp o Skunk já pensava em como seria o visual da banda, os clipes. Tinha uma preocupação grande com a estética. Pena que ele faleceu tão cedo, em junho de 1994, de forma tão trágica (vítima da Aids). Mas os frutos estão aí, e forma de discos, DVDs, shows e um grande legado que o Planet Hemp vem deixando para a música brasileira. 

O Planet fez parte de uma geração muito importante da música brasileira dos anos 90, junto a bandas como Chico Science e Nação Zumbi (CSNZ) e O Rappa. Como era o diálogo com esses demais grupos? A geração do rock brasileiro dos anos 90 tem entre suas principais características a fusão de ritmos. O Rappa mesclou rock com reggae, CSNZ misturou rock com manifestações regionais de Pernambuco e o Planet fez uma fusão de rock com hip-hop. Isso porque D2 e Skunk queriam ser uma dupla de rap, mas não tinham sequer DJ ou equipamentos. Então, se juntaram a três músicos de rock. Depois, o Planet ainda teve o mérito de promover o DJ a integrante fixo da banda, uma coisa muito nova na época. Além do fato de ter dois vocalistas que não tocavam instrumentos e ficavam soltos para lá e para cá. O diálogo com as outras bandas era total. O pessoal do CSNZ morou durante um ano no Rio de Janeiro e, nesse período, o QG da galera era o estúdio Totem, em Santa Tereza, que era da banda Squaws. Ali, se reuniam com Planet Hemp, O Rappa, Black Alien, Farofa Carioca, do Seu Jorge. Essa galera veio a se convencionar como "Hemp Family". Não só pela predileção pela cannabis, mas porque havia outras coisas em comum, como quadrinhos, skate, tatuagem e sons novos que pouca gente conhecia. 

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Foto da primeira formação, em 1993; no centro, o vocalista Skunk, fundador da banda

Que outros tipos de perseguição o Planet Hemp sofreu durante os anos 90? O Planet passou por muitos mau bocados, como as críticas da imprensa e de outros colegas da música. Mas o pior era a repressão, que se estendia aos fãs. Parece que não tem muito tempo, isso foi há 20, 25 anos. Mas é um absurdo pensar que você podia ser preso por chegar num show com uma blusa do Bob Marley ou da folha da maconha, ou mesmo ser ser esculachado e agredido pela polícia por estar com um cigarro de maconha. Não só a banda sofreu, mas o público também. Sem contar quando a polícia estava atrás do dinheiro da banda. Naquela época os ingressos eram vendidos em dinheiro, não havia essa cultura do cartão de crédito, muito menos da compra online. Então, o Planet sofreu muito a repressão com os shows cancelados. Foi uma forma que a Justiça conseguiu de prejudicar a banda. As apresentações eram canceladas na véspera ou no dia. Então, a banda ia viajar de ônibus para fazer dez shows e fazia três, quatro. Imagina o prejuízo. É uma forma de ir minando a energia, atingindo ela pelo bolso. Eram problemas recorrentes que o Planet enfrentava. O primeiro caso mais grave, que chegou às páginas da revista "Veja", aconteceu num show em Vitória (ES), em que duas pessoas foram presas, o promotor do evento e um candidato a vereador. Ficaram dez dias presos. A partir daí, os episódios começaram a sair na imprensa e ganharam visibilidade nacional.

Como você percebe o legado da banda, tanto político quanto musical? Musicalmente, o Planet Hemp é uma banda que foi melhorando com o tempo, com a entrada de novos integrantes. A banda passou a ficar mais moderna, com elementos como os samples e scratches. Do ponto de vista político, era uma banda que, assim como as outras da sua época, fazia a denúncia das mazelas sociais, da perseguição ao pobre, ao preto e ao favelado. Mazelas que, infelizmente, continuam até hoje.

Após as eleições, D2 virou um influenciador digital no Twitter, criticando com firmeza o governo Bolsonaro. Como você percebe a importância dele como figura pública nos bicudos tempos atuais? O Marcelo é uma cara muito corajoso e, por ser o vocalista, sempre foi o mais visado. Tem uma passagem, por exemplo, de um show deles no Olympia, em 1996, quando a polícia cercou totalmente a casa, com viaturas, cães farejadores e tudo mais. Fizeram uma grande barreira e o Marcelo conseguiu fugir de uma forma espetacular do local, separado da banda. Os outros integrantes foram levados para a delegacia e o delegado falou: "cadê o cabeludinho?'" Apesar de a banda estar toda junta naquela luta, ele era o mais visado. Porque é espontâneo, fala o que pensa, sem floreios. O conheço há muitos anos e admiro muito essa coragem de falar sobre o que está acontecendo no Brasil. Ele se sobressaiu nos seus discursos contra o Bolsonaro e curiosamente, nessa semana,  deu uma entrevista para o jornal "Estado de S. Paulo" dizendo que recebe de três a quatro ameaças de morte por dia. E eu não duvido nada, porque isso já acontecia nos anos 90. Imagina hoje, com a internet. São os riscos que ele corre por ter a coragem de denunciar um sistema corrupto.

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Flyer do show da banda em Belo Horizonte, em 1996, com abertura dos mineiros do Tianastácia e Mandrix

Que outra história interessante a banda guarda com Belo Horizonte? Quando o Skunk morreu, a banda não sabia o que fazer, se iam continuar tocando ou não. Mas a madrasta do Skunk pediu para continuarem, porque aquele era o sonho da vida dele. Eles fizeram essa reflexão e partiram para o o primeiro show do Planet Hemp sem o Skunk, que foi em julho de 1994, no festival "Super Demo", que aconteceu justamente na Praça da Estação, em Belo Horizonte. Têm várias outras, como quando o Rafael (Crespo, guitarrista) foi demitido da banda, em 1997, e o Planet foi tocar em BH. Também era o primeiro show sem o Rafael e quem tocou foi o Jackson, que era rodie. Tocou meio disfarçado, de capus, e ninguém percebeu. 

Qual a importância de celebrar a história do Planet, que agora ganhou livro e filme? Eu digo que o "Legalize Já" não é um filme sobre o Planet Hemp, mas sobre a amizade do Skunk e do Marcelo D2. Acho inclusive que devia ter uma parte dois, "Mantenha o Respeito", contando o resto da história depois da morte de Skunk. Já o livro é a verdade nua e crua, sem a liberdade que o cinema permite, de florear, de colocar um pouco de ficção. Mas nada isso desqualifica o filme, pelo contrário. Tudo vem a somar nas comemorações de 25 anos do Planet Hemp. Tão importante quanto o filme e a biografia, foi o relançamento do disco "Usuário" (o primeiro da banda, de 1995) em fita cassete, pela gravadora carioca Deck Disk. É fato que hoje cada integrante tem sua carreira solo, mas o Planet Hemp ainda está aí. Tocando menos, não lançando discos novos, mas segue firme e forte. E uma banda completar 25 anos no Brasil é motivo de comemoração. 

Serviço: O lançamento do livro em BH acontece neste sábado (9), das 11h às 14h, na Livraria Quixote (rua Fernandes Tourinho, 274 – Savassi). A entrada é franca e haverá sessão de autógrafos. À noite, a partir das 21h, o autor vende e autografa livros n'A Obra (rua Rio Grande do Norte, 1.168  Savassi). Haverá uma festa com shows de Roger Deff e Matéria Prima e discotecagem de Pedro de Luna, Gil Radiola e Marcelim. Os ingressos custam R$ 20 até as 22h30 e R$ 30 a partir deste horário.

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