Histórias e objetos do farmacêutico Carlos Drummond de Andrade marcam exposição

Elemara Duarte - Hoje em Dia
10/02/2016 às 07:36.
Atualizado em 16/11/2021 às 01:22
 (Cemefar/UFMG/Divulgação)

(Cemefar/UFMG/Divulgação)

“Drummond: Alquimia Poética” é exposição que mostra o lado farmacêutico de um dos mais importantes poetas brasileiros: Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). A mostra pode ser visitada até 26 de fevereiro, das 9h às 17h, no Centro de Memória da Faculdade de Farmácia, no campus Pampulha da UFMG. São fotos, cartas e documentos acadêmicos inéditos alusivos à época que Drummond estudou na instituição. “É a primeira vez que esse material é exposto”, conta a pesquisadora e curadora Lucinéia Bicalho, pós-doutoranda do Centro de Memória da Farmácia (Cemefar/UFMG), que organiza a mostra.

O poeta se formou na instituição há 90 anos. “Poucos sabem, inclusive, que ele se formou como farmacêutico, na UFMG, em três anos - de 1923 a 1925”, pontua Lucinéia. O escritor, porém, nunca exerceu a profissão.

Todos estes documentos pertencem ao arquivo da Faculdade de Farmácia, e foram recuperados de material que seria descartado, à época da mudança da Faculdade para o Campus da UFMG, em agosto de 2004. O diretor da Unidade, Gerson Antônio Pianetti, explica este processo: “Há cerca de 20 anos, revirando um material que iria para a reciclagem, encontrei essa preciosidade sobre Drummond. É uma felicidade expor agora esses documentos”.

“Temos provas de todos os anos do curso e de todas as matérias, como, por exemplo uma do primeiro ano, de 'Chimica (1º ponto)', em que ele discorre sobre 'Materia, corpo e phenomenos; misturas, combinações, e suas leis; hydrogenio'; uma outra do 2º ano, de 'Pharmacologia', sobre 'Succos ácidos', e outra do 3º ano, de 'Toxicologia (1º. Ponto: Etiologia)' em que fala, de forma muito interessante, sobre 'Envenenamentos criminosos, suicidas, acidentais e profissionais'”, enumera a curadora.

Entre as relíquias há também um requerimento de matrícula e um atestado de bons antecedentes. “Além das provas temos uma certidão de nascimento, um atestado de idoneidade e de residência e outro mostrando que Drummond era vacinado contra varíola e que não era portador de doença infecto-contagiosa. É assinado pelo pai de Drummond, Carlos de Paula Andrade, em 1923”.

A exposição também é composta de materiais doados por Georgeta Amorim, viúva de Antônio Martins Amorim, amigo que estudava com Drummond na Faculdade. “Sua esposa, além de nos contar muitas histórias relacionadas à amizade que mantiveram com Drummond, nos cedeu fotos de alunos do curso na época e que mostram a relação duradoura de amizade entre os dois colegas. Nos cederam também cartas escritas por Drummond a Amorim, que também estão sendo expostas ao público pela primeira vez”, lembra a curadora.

Algumas das cartas contêm poemas de Drummond. Em um dos poemas, intitulado “Final de história”, em que ele fala de sua formatura, ele pede ao colega Amorim:

“faze tudo que eu devia Fazer e que não farei Por sabida incompetência: Purgas, cápsulas, xaropes”

Lucineia diz que o próprio Drummond, diz em uma das cartas a Amorim, que não foi bom aluno e, em outro poema, intitulado “A consciência suja”, fala que sua vida era:

“Vadiar, namorar, namorar, vadiar, escrever sem pensar, sentir sem compreender, (...) E você continua a perder tempo do Bar do Ponto à Escola de Farmácia sem estudar.”

“Já dá para a gente imaginar que não era muito bom estudante, não é?”, deduz a curadora. O mais curioso é que as médias do celebrado poeta, na maioria das provas do acervo, eram baixas. “Com exceção da prova de Higiene, que ficou com média 9,74 e com a qual passou com 'distinção'”. Aleluia, Drummond!

 

NOTA DISTINTA - Prova do jovem poeta itabirano com a boa avaliação. Crédito: Cemefar/UFMG/Divulgação

 

Por essas e outras, fica evidente que o Brasil perdeu um farmacêutico mediano, mas ganhou um de seus mais importantes escritores. E parece que este “treinamento” para escritor começou mesmo foi entre as químicas e os experimentos farmacêuticos. “Algumas de suas provas são quase crônicas sobre alguns assuntos. Muito bem escritas, longas, a maioria, e em outras, ele já mostra, no início do curso sua veia poética, como este trecho da prova de 'Chimica, do 1º. Ano'".

E a curadora lembra o texto:

“Materia – Com este ponto estudamos, por assim dizer, as noções mais elementares da Chimica, as suas noções basicas. Materia é palavra que serve para definir a substancia de que são feitos todos os corpos. Houve quem definisse: 'Materia – tudo o que affecta os nossos sentidos'. Não é exacto: A sombra affecta o orgão visual, e não é materia, mas simples ausencia de luz”.

Talento latente. Quem há de duvidar?

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