Em recente passagem por Belo Horizonte, para participar de um debate após a sessão de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” no Cine 104, o diretor paulistano Daniel Ribeiro se sentiu na pele de uma celebridade, cercado por fãs ávidos por autógrafos e selfies que incensavam sem parar o que se configurou como uma das grandes surpresas do mercado exibidor de 2014.

“Parecia um pop star. É algo incomum entre os diretores, principalmente do tipo de filme (de cunho mais independente) que apresentamos em nossa sala”, registra Daniel Queiroz, coordenador de programação do Cine 104. Tanto assédio explica o fato de o longa-metragem saltar de 13 para 60 cópias em sua terceira semana de exibição. Na capital mineira, também está em cartaz no Belas Artes (confira roteiro).

Fenômeno que contraria os analistas que se apressaram em encaixar o trabalho de Ribeiro no escaninho dos filmes de nicho, devido à sua temática gay.

A história gira em torno de Leo (vivido por Guilherme Lobo), um garoto cego que, lutando por sua independência, descobre mais sobre sua sexualidade ao se apaixonar por um colega de classe (Fábio Audi).

Na avaliação do crítico de cinema João Nunes, o sucesso de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” entre o público adolescente surpreende, especialmente ao abordar um assunto que não parecia muito afeito a essa faixa.

O jornalista observa que houve uma resposta muito positiva a um estímulo gerado nas redes sociais, encontrando ressonância principalmente entre os mais jovens.

“O filme dialoga com os jovens em dois temas cruciais, que são o afeto e as descobertas sexuais, e o faz de forma direta e extremamente delicada. A fragilidade de um adolescente cego, aliada à determinação dele e à maneira como se encara gay com naturalidade encantaram os jovens porque a metáfora da impossibilidade cai por terra quando o viram superando todo os obstáculos”, analisa Nunes.

O crítico Luiz Joaquim salienta que o longa abriu uma porta temática para o cinema brasileiro que, mesmo não sendo o primeiro, evidenciou maior inteligência para atrair o público. “Escancara, mas sussurrando no ouvido do espectador, que a dimensão relacionada ao afeto humano é muito mais sofisticada e abrangente daquilo que estamos habituados a consumir no cinema comercial”.

No Cine 104, o filme se tornou a maior média de público da história da sala, com sessões lotadas na semana de estreia. “As pessoas assistem ao filme mais de uma vez. Durante o debate com o diretor, um espectador disse que já tinha visto cinco vezes. O público vestiu a camisa, como se tivesse ele feito o filme, tentando levar outras pessoas para vê-lo, como amigos e parentes”, destaca Daniel Queiroz.