Uma das maneiras de abordar o filme “A Luz no Fim do Mundo”, em cartaz nos cinemas, é como uma obra de ficção sobre um futuro distópico, em que a humanidade é atingida por um vírus que ataca somente mulheres e estas são obrigadas a ficar confinadas fora dos centros urbanos. Aquelas que não acatam as regras, são perseguidas. 
 
Tentando sobreviver a esta realidade, pai e filha enfrentam várias adversidades, desde o fato de estarem “fora da lei” por treiná-la constantemente para se portar como homem diante dos outros, até a dificuldade de uma menina, na fase de amadurecimento, privada de sua adolescência e feminilidade.
 
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Personagens de Casey Affleck e Anna Pniowsky buscam sobreviver num cenário apocalíptico

 
O ambiente que “A Luz no Fim do Mundo” apresenta não é muito diferente de outras obras de ficção científica com tema semelhante, em que a sociedade se reorganiza a partir de preceitos muito próprios, prevalecendo a desconfiança, a violência e formas de convivência que remontam ao início da civilização.
 
A maneira como exibe esse retrocesso é o que mais sobressai no filme dirigido e protagonizado por Casey Affleck. À luz de hoje, esse olhar inevitavelmente mira a questão da mulher, de como o medo ultrapassa a epidemia mundial e explicita um receio histórico-cultural, de progressivo silenciamento e apagamento.
 
Opressão
A única mulher real presente na narrativa é a garota (vivida com brilho por Anna Pniowsky). Há ainda a esposa e mãe, que aparece em constantes flashbacks, para lembrar o pai de sua missão. Ela é interpretada por Elizabeth Moss, impossível não associá-la à personagem da série “O Conto de Aia”, que também aborda a opressão da mulher.
 
Ao mesmo tempo em que nos solidarizamos com o esforço do pai para proteger, desde o primeiro minuto sabemos que se trata de uma luta com tempo para terminar: será impossível a ele impedir a mulher que floresce na filha. Affleck trabalha esse temor constante para depois, de maneira muito sensível, inverter esses papéis.
 
Ator e diretor do filme, Casey Affleck foi acusado, em 2010, de assédio sexual por duas mulheres que trabalharam com ele no filme “Eu Ainda Estou Aqui”. Na época, negou as denúncias e fez acordo judicial
 
O pai deixa de ser o herói, paulatinamente ele mesmo vendo-se como repressor – em prol da sobrevivência, ela precisa pensar como um homem, repetindo uma postura secular de submissão e perda de identidade. E ele percebe que seu discurso é enganoso e que não poderá protegê-la para sempre.
 
O final de “A Luz no Fim do Mundo” é violento e angustiante e, ao mesmo tempo, libertador e esperançoso, substituindo o homem provedor por um futuro que, se não é garantia de reconhecimento sobre a importância da paridade, exibe a necessidade do gesto, da busca de necessária mudança de conceitos, a despeito do que está lá fora.