Quando o editor (Lucas Maroca, da Crivo) propôs a Hugo Lima publicar o projeto "Corpo dos Afetos: para Herberto Helder" no formato livro - antes, era uma plaquette, com apenas dez poemas, o belo-horizontino tratou de passar em revista todo o material. "E senti que, na maioria dos textos, faltava alguma coisa", reconhece.  

A verdade é que muitos dos poemas haviam sido escritos há seis anos, quando Hugo tinha apenas 21 anos. "E uma bagagem de leitura bem menor que a que tenho atualmente", assume. Ou seja, na sua própria avaliação, os escritos precisavam "amadurecer", ganhar mais consistência... Durante esse tempo, descobri novos autores e novos modos de pensar e fazer poesia", diz ele, que acaba de lançar, pois, a nova edição - a sessão de autógrafos aconteceu mês passado, no Café Biografias, no Maletta. Mas o hiato entre a publicação da plaquette e o livro atual também reforçou a intimidade de Hugo com a obra do português Herberto Helder, morto em março deste ano, e a quem o livro é dedicado.  

A imersão maior no universo do poeta nascido em Funchal fez com que Hugo volvesse seu olhar para aquele trabalho sob outras perspectivas.  
Não bastasse, ainda veio o contato com as ideias do semiólogo Roland Barthes (1915-1980), que fizeram com que Hugo mudasse completamente a sua relação com a linguagem, fazendo com que interagisse com ela de maneira muito mais afetiva, digamos assim.

AO MESTRE, COM CARINHO

Na opinião de Hugo Lima, Herberto Helder conseguiu, em todos os seus livros, produzir uma obra densa, complexa. "Por vezes, hermética, mas muito bonita, delicada, com construções imagéticas bem peculiares, fortes, em muitos dos seus versos".  

Desde a primeira vez que leu o lusitano, versos como "Sou amado, multiplicado, difundido./ Estou secreto, secreto /- e doado às coisas mínimas ou ...e em ti principiam /o mar e o mundo" deixaram o mineiro tocado pela grandeza, pela beleza, pela força dessas construções. No começo, Hugo confessa que teve, sim, certa dificuldade para compreender o que o autor queria dizer ou onde pretendia chegar com tantas metáforas e experimentalismos. "Porém, com o tempo, e inúmeras releituras, fui 'pegando o jeito', acertando o passo, e o estranhamento inicial foi dando lugar a uma profunda identificação".  

Identificação que, prossegue, foi, na verdade, a descoberta de um jeito novo de fazer poesia, "muito mais livre, abstrato, sem precisar, necessariamente, me prender a esta ou aquela estrutura".

DIVISOR DE ÁGUAS

Helder foi um divisor de águas na vida de Hugo. Mas não o único. "Experiência semelhante tive apenas qu[/TEXTO]ando li Manoel de Barros, que, para mim, também soube imprimir, em sua obra, o mesmo teor de complexidade, beleza e abstração que o poeta português". Para Lima, para ambos, uma palavra não é só uma palavra. "Vai muito além da simples denotação, seu sentido se desdobra, se multiplica, dando 'largura', 'elasticidade' à compreensão". Poetas, pois, que tiram o leitor do lugar-comum, ampliam nosso olhar. E isso me interessa bastante".  

Quanto ao próprio trabalho, Hugo diz que fala de coisas que o tocam e que podem, eventualmente, tocar outras pessoas com a mesma intensidade. "Ou, algumas vezes, de coisas que nos tocam e que não percebemos ou não damos a devida importância", diz Lima, autor também de "Nus, Florais & Ping-Pong", lançado em maio de 2014, pela mesma editora.

Confira, a seguir, outros trechos da entrevista com Hugo Lima

Ao editar o livro em outro formato, você também agregou material inédito... Poderia falar a respeito?
Um único poema foi escrito exatamente no dia da morte do Herberto: minutos depois de receber a notícia, num momento de distração, escrevi seu nome diversas vezes num papel, na vertical e na horizontal, e, brincando de criar palavras e frases a partir das iniciais, acabei esboçando um acróstico que, depois de trabalhado, deu origem ao poema "Com o seu nome do princípio: OU marítmo". "Com o seu nome do princípio" foi extraído de um verso do Herberto e "marítmo" (escrito assim mesmo, sem o outro "i") foi como batizei esse poema que fala dos seres que habitam o mar, que parecem dançar com o movimento das águas, quase como quando observamos peixes e algas num aquário, que vão deslizando lentamente de um lado para o outro, numa espécie de "coreografia marítima". O poema parte exatamente dessa imagem. Há também poemas, como "Sobre o lugar anatômico: OU as tensas florações", "Sargaço: OU da arrebentação" e "Um barco remenda o mar", que não foram escritos especificamente para esse projeto, mas surgiram sob o impacto das minhas leituras da obra do Herberto. "Um barco remenda o mar", por exemplo, surgiu durante uma viagem que fiz a Natal, em 2013. Numa manhã, estava visitando o Forte dos Reis Magos quando um guia, diante daquele imenso mar, contou-me que ali era o ponto mais próximo do continente africano. Enquanto conversávamos, fiquei observando um barco que passava ao longe, surgido do nada e desaparecendo no horizonte, e comecei a imaginar como seria se eu pudesse seguir com ele até chegar, sei lá, à África. O Herberto viveu algum tempo na África e todas essas coisas (o poeta, a poesia, o mar, a África, os barcos) têm uma conexão, pra mim. Por isso, considerei pertinente integrar esses poemas ao "Corpo dos Afetos".

Como define o seu trabalho? O que está no bojo dele?
Eu, basicamente, falo de relações: minha relação comigo mesmo, com o outro, com a linguagem, com a cidade onde vivo, com os lugares por onde passo. Em meu primeiro livro, "Nus, Florais & Ping-Pong", isto está muito bem marcado. Belo Horizonte aparece como o cenário principal dos poemas: cito o edifício Maletta, o Acaiaca, a avenida Afonso Pena, a rua da Bahia, um casarão demolido na rua Rio Casca, no bairro Carlos Prates… Mas também faço referência às minhas passagens por São Paulo, pelo Rio de Janeiro, pelo Rio Grande do Norte… Falo de coisas que me tocam e que podem, eventualmente, tocar outras pessoas com a mesma intensidade, ou, algumas vezes, de coisas que nos tocam e que não percebemos ou não damos a devida importância. Em "Trânsito", por exemplo, falo das pessoas que vêm de dentro/ pessoas que vêm de fora/ pessoas que me atravessam, ou em "O Ser e o Tempo", falo da nossa relação com o mar, que é o mesmo mar de Cabral/ o mesmo mar das Cabrálias/ o mesmo mar do Japão/ o mesmo mar de Ismália. No "Corpo dos Afetos", falo, sobretudo, da minha relação com as palavras.

Quais são as suas influências e como se dá o seu fazer na escrita?
A Vera Casa Nova, que considero como uma das minhas "amas-de-letras", ao lado da Tida Carvalho, da Adriana Calcanhotto e da Angélica Freitas, diz que não há, necessariamente, influência, mas, sim, confluência: as coisas fluem juntas. Leio o tempo todo, transito pela cidade, ouço música, assisto a filmes, escuto conversas dentro do ônibus, do metrô, no elevador, no trabalho, converso com meus amigos... Tudo isso, de certa forma, vai fluindo junto com a minha poética. Nas palavras do Manoel de Barros, tudo é "matéria de poesia". Talvez, no início, por volta dos meus 12, 13 anos, quando comecei a escrever, tenha me deixado influenciar por autores como Carlos Drummond de Andrade, que eu lia com muita frequência, mas depois de um tempo fui descobrindo minha própria linguagem, que carrega, em seu cerne, um pouco dessas "pessoas que me atravessam". No "Nus, Florais & Ping-Pong", a presença de alguns autores, de algumas canções, de alguns filmes, está explicitada em vários versos, sobretudo na dedicatória de alguns poemas que surgiram a partir dos meus diálogos com determinadas pessoas. Já em "Corpo dos Afetos", apesar de o trabalho ser inteiro dedicado ao Herberto Helder e à Julia de Carvalho Hansen, há, no final do livro, uma lista das várias referências que me atravessaram durante o processo de escrita dos poemas. A poesia, hoje, ocupa um lugar central na minha vida. Através dela, tenho chegado a lugares até então impensáveis. Mas acho que o mais interessante - e o mais importante, pra mim - é essa oportunidade de tocar o outro, de fazer com que a minha palavra reverbere, ecoe, de perceber como as pessoas se identificam com o que eu penso, sinto, escrevo... Isso me deixa profundamente grato, me inspira, me torna cada vez mais comprometido com o meu trabalho, com a arte, com a escrita... De certa forma, é isto que eu tento destacar em "Corpo dos Afetos".

Como vê o papel da poesia/literatura nos dias de hoje, em um mundo frenético, tão seduzido pelo espaço virtual?
Corrupção, violência, roubos, desastres, golpes, atentados, crises… Há uma série de acontecimentos que vêm deixando a humanidade cada dia mais triste, insegura, angustiada. De modo geral, não estamos vivendo um momento muito feliz em nossa história. Em busca de soluções, há os que se apegam à religião, outros que recorrem à psicanálise... e há os que encontram refúgio na literatura. A internet é, hoje, uma das principais ferramentas de comunicação com o outro. Produzimos textos o tempo todo, pelo Facebook, pelo Whatsapp, pelo Messenger, por e-mail… E perceber que, mesmo em meio às barbáries do dia a dia, várias pessoas estão se "aproveitando" desses espaços para disseminar mensagens positivas, palavras de afeto, é confortador. Vejo uma galera compartilhando meus poemas, poemas de outros autores, enfim, compartilhando poesia. Isso contribui, inclusive, para que as pessoas criem o hábito de ler mais e melhor no cotidiano, entre uma pausa e outra, já que estão boa parte do tempo com seus smatphones em mãos, conectadas. Essa rede é muito poderosa, só precisamos aprender a lidar um pouco melhor com ela! Além disso, a internet pode ser usada, também, como um termômetro. A seleção de alguns dos poemas que entraram para o meu primeiro livro foi feita com base na quantidade de curtidas, comentários e compartilhamentos que eles tiveram quando postados nas redes. O feedback, quase imediato, pode nos dar uma noção sobre qual caminho seguir ou nos ajudar a desenvolver alguns crivos. Minhas palavras estão chegando a outros estados e outros países graças à circulação e visibilidade que a internet proporciona. É também assim que tenho conhecido e me comunicado com outros artistas geograficamente distantes. Pra mim, ela se tornou uma grande aliada.