Àqueles que apreciam música irlandesa ou celta, aos fãs da mescla de folk e metal do Tuatha de Danann e aos aficionados pelos dois mundos, vale a mesma afirmação/constatação: o grupo de Varginha (MG) entrega um álbum que cumpre seu propósito de homenagear o estilo tradicional do país europeu e, ao mesmo tempo, beira à perfeição, ora pendendo mais para o lado da música pesada, ora para o âmbito mais folclórico, mas sem que se torne uma obrigação manter o pleno equilíbrio de sua simbiótica fórmula durante todo o tempo.

O que prevalece aqui, acima de tudo, são o bom gosto, a espontaneidade, o feeling, a riqueza dos arranjos, o notório amor pelo instrumental/cancioneiro irlandês e a forma natural com que as músicas saíram. Mais novo álbum do Tuatha, “In Nomine Éireann” acaba de sair do forno com deliciosas 11 peças e toda a magia dos duendes mineiros intrínseca a elas.

São nove faixas que prestam tributo à músicas e às canções irlandesas – que fazem parte das raízes do conjunto mineiro – e mais dois temas autorais e inéditos – “The Calling” e “King” –, com a presença de vários convidados, tanto do Brasil, quanto do exterior, seja do heavy metal, seja da música folclórica (confira a lista de participações mais abaixo).

O Hoje em Dia fez cinco perguntas ao líder do Tuatha e multi-instrumentista Bruno Maia a respeito do atual momento do grupo e de “In Nomine Éireann”, este que é um dos melhores álbuns de 2020.

Tuatha de Danann

Cinco questões para Bruno Baia

Qual foi sua impressão quando ouviu o álbum pela primeira vez depois de todo o processo que envolveu gravação, arranjos, composição das novas músicas, participações, mixagem... E o que foi mantido e alterado desde a primeira ideia até ter o álbum em mãos?
Eu fiquei muito feliz, satisfeito, realizado e orgulhoso, pois além das músicas mais pesadas, que é onde estamos mais confortáveis, há as que são puramente tradicionais, sem instrumentos de rock, só a música típica celta, pura. Eu sempre quis fazer isso e me senti muito realizado e com a sensação de que honramos a cultura irlandesa com o disco. O que foi alterado é que no início seria um álbum 100% de versões, com dez faixas, Mas ao longo do processo criamos duas canções autorais. Ficaram nove tradicionais e duas autorais. Ao longo do processo mudamos alguns temas tradicionais que compunham os sets também.

Houve um financiamento coletivo para a produção de "In Nomine Éireann". O quão importante foi contar com este apoio ainda mais em tempos de pandemia? 
Não foi exatamente um crowdfunding, pois temos uma gravadora que bancou a produção do disco. Foi uma campanha de pré-venda do disco e de apoio à banda neste momento de pandemia, sem shows, sem gerar receitas etc. Propusemos planos em que a pessoa podia ter o CD em casa quando lançado, acompanhar toda a produção do álbum através de vídeos em um canal privado, shows exclusivos e descontos em nosso merchandising. O pessoal entrou para ajudar a banda mesmo. Foi maravilhoso isso! Nos mostrou o quanto fazemos diferença na vida de muita gente, o quanto somos queridos, e nos deu muito incentivo e estímulo para seguir em frente. Sem contar o lado material, que com o dinheiro da campanha, a gente pôde se dedicar exclusivamente à produção do disco, foi fera demais! Somos muito gratos por tudo isso, a toda essa gente.

As participações engrandeceram ainda mais o produto final. Qual a maior certeza que você tem após ter tantas colaborações de alto nível nessa mescla de Brasil-Irlanda? 
Sim, foram muitas participações. Temos sorte de ter muitos amigos talentosos no mundo todo. E talvez, pelo fato de sermos mineiros, tem um quê de Clube da Esquina aí, sabe? Contar com o talento e a solicitude de outros amigos para engrandecer o trabalho e ainda fazer a música ser uma forma de celebrar a união, a amizade e a luta... Querendo ou não, sempre que um artista ou banda lança um álbum, é uma vitória para toda a classe, é uma batalha ganha, e contar com tanta gente talentosa pra agregar e imortalizar sua arte é uma coisa linda! Neste disco. ter contado com a participação de John Doyle (artista e músico irlandês) foi um sonho para mim.

Após um hiato de 11 anos que separam "Trova Di Danú" (2004) de "Dawn of a New Sun" (2015), o Tuatha lançou quatro álbuns em um intervalo de cinco/seis anos: o já citado "Dawn", a regravação do primeiro disco "Tuatha de Danann" (2016), o "The Tribes of Witching Souls" (2019) e, agora, "In Nomine". De que forma você analisaria esse período mais recente do grupo e o que já tem em andamento para o futuro? O Tuatha já tem alguns esboços ou algumas composições em andamento visando a um novo de inéditas?
Estamos num momento muito bom enquanto banda, estamos empolgados e adorando todos os aspectos. Até aquela ansiedade que tínhamos quando jovens estamos tendo. A formação é muito boa, nos damos muito bem, sem estresse, e todos tocando muito bem, então isso estimula a gente, nos entusiasma, brotam criatividade, vontade etc. Sobre som novo, nós temos sim muitas ideias, coisas até já adiantadas em demos e guias, mas temos de curtir o momento do “In Nomine Éireann”. 

Com 26 anos de história, o Tuatha caminha para suas três décadas de existência. Como mentor, principal compositor e multi-instrumentista da banda, qual a maior conquista e do que você mais tem orgulho com o Tuatha?
‘Puizé’, tem chão! Acho que a maior conquista é continuar a banda enfrentando toda moda e as tendências, sem nos vender ou corromper e ainda nos sentir relevantes, capazes de nos entusiasmar com o que fazemos e nos sentir desafiados pela arte ainda. Isso é o fogo que queima e nos move. Se eu perder isso, e a banda, ou a música em minha vida se tornar algo mecânico, simples e prosaica, tipo eu passar a pensar que fazer um álbum não é nada mais que fazer um álbum, ou que é algo que faz simplesmente parte do trabalho, eu terei matado o artista em mim. Soa meio romântico, mas é por aí mesmo. Eu preciso me emocionar, me desafiar, às vezes me sentir inseguro e incapaz diante do processo de criação para poder encarar a arte de forma artesanal e única, e isso acontece ainda. Muito! Acho que é uma grande conquista, acreditar de verdade na minha arte, ainda poder fazê-la depois de tantos anos, sem nos vender ou render ao mecanicismo e descartabilidade do ‘business’, sem padrinhos, sem dinheiro e ainda ser relevante para tanta gente.

Tuatha

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Tuatha

Tuatha de Danann
Bruno Maia (vocal, guitarra, banjo, bouzouki, low whistle, tin whistle)
Giovani Gomes (baixo e backing vocals)
Edgard Brito (teclados e escaleta)
Nathan Viana (violino)
Raphael Wagner (guitarra)
Rafael Delfino (bateria e bodhran)

Participações
Alex Navar (uilleann pipes) em "Nick Gwerk's Jigs", "Guns and Pikes", “Moytura” e "The Dream One Dreamt"
Keith Fay (vocais) em "Molly Maguires"
Kane O'Rourke (violino) em "Nick Gwerk's Jigs", "Molly Maguires", "Moytura" e "The Master Reels"
Marcell Cardoso (bateria) em "Guns and Pikes" e "The Wind that Shakes the Barley"
Folkmooney (vocais) em "Guns and Pikes"
Manu Saggioro (vocais) em "The Calling"
Daísa Munhoz (vocais) em "The Wind that Shakes the Barley"
Talita Quintano (vocais) em "Newry Highwayman"
John Doyle (violão e bouzouki) em "The Master Reels"
Rafael Salobreña (bodhran) em "The Master Reels"
Marc Gunn (vocais) em "The Devil Drink Cider"
Fabricio Altino (bateria) em "The Devil Drink Cider"
Finn Magill (violino) em "The Dream One Dreamt"