Último dos nove indicados ao Oscar a entrar em cartaz nos cinemas (ou melhor, a estar disponível ao grande público, já que há dois concorrentes produzidos pela Netflix na categoria principal), “Jojo Rabbit” é uma espécie de “A Vida é Bela” às avessas.

Jojo Rabbit

Taika Waititi (Adolf Hitler) e Roman Griffin Davis (Jojo Rabbit) em cena do filme


O filme italiano de Roberto Benigni, que venceu “Central do Brasil” como melhor longa em língua não-inglesa, em 1999, também tem a Segunda Guerra como pano de fundo e evidencia o poder da imaginação de uma criança numa situação extrema.

A diferença é que, em “Jojo Rabbit”, a fantasia se dá de dentro para fora, a partir de um garoto que tem como melhor amigo Adolf Hitler. Já em “A Vida é Bela” é o pai de um garoto que cria na mente dele uma realidade alternativa ao campo de concentração onde estão.

O humor, no caso do italiano, se desenvolve no esforço do pai em dar verdade à imaginação. Dirigido por Taika Waititi (de “Thor: Ragnarok”), que também interpreta o fuhrer, “Jojo Rabbit” faz o caminho contrário, em que o real paulatinamente supera a invenção.

Bater os olhos num Hitler fazendo-se de bom amigo e engraçadinho assusta no início, mas o texto vai relativizando essa presença, tornando-o mais o símbolo da manipulação fascista para levar o povo alemão a acreditar na supremacia ariana.

A narrativa consegue avançar sem tornar Jojo um pentelho. Apesar de grande defensor dos ideais nazistas, ele é visto como vítima – tanto dos colegas quanto do sistema. Waititi tem uma boa mão para o humor ingênuo, sem deixar resvalar para o deboche.

O filme também remete a um trabalho anterior do diretor, “Boy” (2010), sobre a desmitificação de um pai por um garoto. Em “Jojo”, a figura da mãe – vivida por Scarlet Johansson, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante – cresce muito a partir da segunda metade.

Numa das mais belas cenas do longa, a mãe se transmuta em pai, o que leva Jojo a ter outros olhos para ela, assim como para o que acontece ao redor. Um raro filme em que os coadjuvantes (o que vale para Sam Rockwell) têm função determinante em seu desfecho.