O grande chamariz de “Ainda Temos a Imensidão da Noite”, produção nacional com estreia hoje no Belas Artes, é a protagonista Ayla Gresta. É a partir dela que o filme cresce e nos conecta à proposta de um drama existencial musical, tendo a desértica e impessoal Brasília como cenário.

A personagem de Ayla anseia pela pulsação da música num lugar que, apesar de ter sido o berço do BRock nos anos 80, com Capital Inicial, Legião Urbana e Plebe Rude, exibe zero interesse pelo gênero ou mesmo pela experimentação neste campo.

Destaque principal é a protagonista ayla gresta

Destaque principal é a protagonista Ayla Gresta


Ao lado de seus amigos de banda, vive o conflito de estar numa prisão de concreto, que sufoca qualquer tentativa de originalidade e de saída da bolha política-administrativa. Quando o filme está com ela, assimilamos esta inquietação provocada pela atuação autêntica de Ayla.

Não estão em pauta, por exemplo, os interesses sexuais, os jogos amorosos ou mesmo um discurso sobre os caminhos da política brasileira (embora seja possível fazer relações dela com o estado de inanição da arte). O que prevalece é a força da expressão artística concentrada em Ayla.

Essa vibração está na narrativa e quando esta perde a protagonista de vista, principalmente na primeira parte, nos momentos em que a banda se reúne e o roteiro insiste em reiterar questões já estampadas em Ayla, o filme cai muitos pontos.

Fantasmas

Há uma necessidade em dar mais voz a outros personagens que deveriam ser apresentados apenas pela ótica da artista vivida por Ayla, como fantasmas a atravessar a trajetória dela – e quando você a vê sozinha e decidida numa cidade fantasmagórica, esta observação se justifica.

Esta abordagem mais misteriosa está presente no personagem alemão (que exerce, inicialmente, um estranho fascínio nela) e em Berlim, cidade alemã que nos é apresentada tão somente pelos olhos de Ayla, exercendo apenas a função de ser o lugar onde ela definirá os seus rumos.

Quando ela está na Alemanha, ouve-se uma afirmação-chave para definir este caminho a ser tomado, ao dizerem para que, assim como fizeram nos escombros de Berlim pós-Segunda Guerra, ocupe Brasília. A capital federal está “destruída”, só é preciso saber como tomá-la.