Jards Macalé foi um dos amigos de primeira hora de Glauber Rocha. Essa ligação afetiva com o pai, porém, não está entre as principais razões para Eryk Rocha se aproximar do cantor "maldito" em seu novo longa-metragem, "Jards", com estreia nesta sexta-feira (21) no Cine 104.

À reportagem do Hoje em Dia, o diretor recorre à palavra "transe" não como homenagem a quem ajudou na formação do Cinema Novo, mas um registro mais complexo que diz respeito "às forças originais da criação".

"Num mundo em que se privilegia o produto acabado, alumbrar o processo criativo é uma forma de desmistificar o artista e olhar para a relação do homem com a música", registra Rocha, distinguindo o filme de outros documentários musicais que idealizam o biografado.

Essa opção justifica a ausência de entrevistas e informações biográficas sobre o autor de "Vapor Barato". Rocha destaca que "não é preciso ter conhecimento prévio em torno da biografia dele, como quantos discos lançou, para sentir que ali há um filme".

Ele ressalta os três elementos que compõem a narrativa do documentário: imagem, música e corpo. "Faço uma amálgama entre cinema e música, com um antropofagiando o outro. O que me interessou foi materializar uma linguagem onde a música atravessasse o corpo de Jards".

Invenção

Rocha trava um diálogo entre ele e o músico, em que a dialética (a contraposição) dá lugar a uma viagem que vai do cotidiano ao onírico, intermediada pelo corpo. "É um filme todo construído de intervalos, representativos da força da invenção", assinala Rocha. A partir do encontro fílmico nasceu a cumplicidade de uma amizade. "Ele é como o meu irmão mais novo", brinca.

Duas narrativas poéticas e sensoriais

Eryk Rocha admite as semelhanças de "Jards" com seu longa anterior, "Transeuntes" (2011), especialmente no campo musical. Lembra da última cena de "Transeuntes", em que pedem para o protagonista cantar numa seresta. No filme seguinte, a abertura traz justamente uma apresentação de Macalé.

"Em ambos, a narrativa tem um papel poético e sensorial", define o cineasta. Mas as coincidências não se limitam a esse aspecto: "São dois homens solitários que experimentam, cada um a seu modo, o trânsito entre a solidão e o êxtase", analisa.

A fotografia que ele define como "epidérmica", com a câmera colada aos corpos, é um reflexo, segundo Rocha, de seu "olhar de descoberta diante de um universo completamente novo". Sublinha que nunca estudou música, apesar de tocar "de forma rasa" violão e percussão. "Não conhecia os detalhes das texturas e cores, reservando-me, portanto, à curiosa descoberta de uma criança".

Iconoclássicos

O longa faz parte da série "Iconoclássicos", realizada pelo Itaú Cultural, que teve a participação do mineiro Cao Guimarães ("Ex Isto"). "Jards" será exibido no Cine 104 juntamente a "Daquele Instante em Diante", em sessões gratuitas. O segundo, dirigido por Rogério Velloso, trata do também músico Itamar Assumpção.