“Chegamos ao limite da água mais funda / Levanto o olhar pro céu / Trevas, trevas / Treva, a mais negra sobre homens tristes”. Há quem diga que os versos se encaixam na situação política do Brasil em 2019. Mas foram escritos por Jards Macalé com base em um poema bem antigo. Trata-se de “Canto I”, do modernista norte-americano Ezra Pound (1885 – 1972). O poema serviu como inspiração para a composição de “Trevas”, primeira música inédita lançada pelo cantor e compositor carioca desde o álbum “O Q Faço É Música”, de 1998. 

O single abre-alas do novo disco do “maldito” – rótulo que recebeu por ser incompreendido pelas mensagens vanguardistas –, que será lançado pela Natura Musical ainda neste ano, saiu em 10 de janeiro, com direito a videoclipe. 

Repetição

A gravação contou com os certeiros violões de Kiko Dinucci, a guitarra de Guilherme Held, o baixo de Pedro Dantas e a bateria de Thomas Harres. Tudo conduzido por Macalé, que assina a direção musical. Soturna e propositalmente torta, a música alterna um verso sujo e repetitivo de guitarra com momentos “dançantes” de samba, dando lugar, ainda, a um solo de guitarra quebrado e dissonante.

No vídeo, dirigido por Gregório Gananian, imagens densas e escuras se alternam, fazendo a ligação entre a letra e os tempos atuais. Entre uma e outra aparição de Macalé, surgem o desenho em néon de um militar batendo continência e a imagem da obra “Seja Marginal, Seja Herói” (1968), de Hélio Oiticica, banhada em um líquido vermelho-sangue. Uma outra frase – como “ninguém é coisa nenhuma” – aparece entre imagens de fuzis e escombros.

Parcerias

Trata-se de um instigante aperitivo para o próximo e aguardado trabalho de Macalé. O primeiro disco de inéditas do carioca em duas décadas será marcado por parcerias com artistas contemporâneos das novas gerações, tais como Tim Bernardes, Romulo Fróes, Ava Rocha, Rodrigo Campos e Clima. 

Kiko Dinucci e Thomas Harres também assinam faixas junto a Macalé. A música gravada com Tim Bernardes, “Buraco da Consolação”, foi apresentada no programa “Conversa com Bial”, da TV Globo, em dezembro passado. 

Mas “Trevas” é a primeira gravação a ser publicada nas redes – diga-se de passagem, num momento extremamente oportuno, de total distopia sociopolítica. O “retorno” do “Vampiro de Copacabana” nunca pareceu tão adequado. 

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