Filmes de ação protagonizados por mulheres têm sido cada vez mais frequentes, mas as conquistas recentes pela paridade soçobram diante do perfil das personagens, especialmente quando estão em cena agentes de espionagem, em que a principal habilidade sempre parece ser a possibilidade de sexo fácil.

Em “Operação Red Sparrow”, Jennifer Lawrence é uma Mata Hari dos tempos atuais que não difere de outras investidas no gênero, como “Salt”, estrelado por Angelina Jolie em 2010. Apenas “Atômica” (2017), trouxe algo diferente em relação ao empoderamento, com a agente livre para fazer suas escolhas.

O que tem de sobra em “Atômica”, com Charlize Theron no papel principal, falta em “Red Sparrow”: um sensação de controle da situação, característica de todo herói que se preze. A russa interpretada por Jennifer é mais uma vítima, num filme que recicla ingredientes dos tempos da Guerra Fria.

Até a maneira como exibe americanos e russos no trabalho de espionagem nos conduz à paranoia comunista de décadas atrás, em que os vermelhos não carregam qualquer valor moral, como o tio que não pensa duas vezes antes de expor a sua sobrinha e a deslealdade dentro de uma companhia de balé.

As cenas passadas num local destinado à “reprogramação” dos agentes chegam a ser constrangedoras, com Charlotte Rampling obrigando as mulheres a usarem o seu corpo sem qualquer pudor para o bem do Estado. Quase toda a trama de “Red Sparrow” gira em torno da propriedade sobre o corpo.

Outro exemplo é quando agente americano é descoberto e lascas da pele dele são lentamente retiradas. Se fosse numa trama de terror de David Cronenberg, em que a maneira como usamos o corpo reflete o estado de uma sociedade, faria algum sentido. No filme, vira coisa de russo comedor de criancinha.

É curioso observar ainda que, em boa parte dos filmes de espionagem, a mulher acaba se tornando uma agente dupla, trabalhando aparentemente para os dois lados. Aspecto que surge tanto em “Salt”quanto em “Atômica” e “Red Sparrow” e que, num filme de James Bond, jamais seria levantado.

O roteiro fraco e previsível do longa de Francis Lawrence (“Jogos Vorazes”), em que o elenco exibe um desnecessário sotaque russo, não é compensado pelo quesito ação e suspense, tornando-se pouco envolvente. Se ainda se levasse menos a sério, como “Atômica”, poderia gerar um algum divertimento.