“Se essa rua, se essa rua fosse minha”, cantavam atores durante um mutirão de limpeza no Espaço Comum Luiz Estrela. Seria mais uma cena lúdica e cotidiana do local, não fosse a presença de Juca Ferreira, que observava a intervenção com olhos atenciosos. Junto a autoridades da área do patrimônio, o secretário municipal de cultura visitou nessa segunda-feira, pela primeira vez, o casarão tombado, situado no bairro de Santa Efigênia e ocupado por coletivos da classe artística em 2013. 

Quatro anos depois, os agentes culturais envolvidos na ocupação celebram o fim da primeira etapa de obras, que garantiu que o edifício ficasse de pé. “Quando ocupamos o casarão, descobrimos que ele estava desabando. E isso tem a ver com a história do edifício. Ao entrarmos, vimos que ele não havia sido somente um hospital militar. Observando os desenhos nas paredes, fomos pesquisar e descobrimos que foi, também, um hospital psiquiátrico infantil, onde crianças foram confinadas, passaram por choque elétrico, lobotomia”, conta a arquiteta Priscila Musa. “Ao longo da transformação do tratamento psiquiátrico no Brasil, o edifício sofreu alterações que acarretaram danos. Não foi só o abandono que colocou o prédio em risco”, explica.

Para Juca Ferreira, mais do que o espaço em si, chama a atenção a história da ocupação e do restauro do casarão. “É uma iniciativa de grupos artísticos ligados à cultura da cidade, que estão recuperando a história e os equívocos cruéis cometidos nesse espaço, com isso gerando novas narrativas e significados”, afirmou o secretário, que tem visitado equipamentos culturais abandonados de Belo Horizonte. “Me chama a atenção a precariedade do setor na cidade, que tem uma vida cultural ampla e qualificada, mas que precisa de uma atenção maior. A criação da secretaria está dentro desta perspectiva, de fortalecer a relação do município com a cultura, incluindo o patrimônio e a memória”. 

Prêmio

Além de marcar o fim da primeira etapa das obras, a visita de Ferreira aconteceu um mês depois que o espaço foi contemplado pela 30ª edição do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, o maior prêmio de patrimônio do país. “O Luiz Estrela mostra que existe a possibilidade de restauração de patrimônio para além da esfera pública, através de coletivos”, afirmou a superintendente do Iphan-MG, Célia Corsino. 

Presidente do Iepha, Michele Arroyo reiterou a importância da sociedade civil abraçar o patrimônio cultural da cidade. “O Aloísio Magalhães falava que a comunidade é a maior guardiã de seu patrimônio cultural, e aqui temos um exemplo claro de que só o reconhecimento como patrimônio não faz de um espaço pleno de significado”, defendeu. “Esse é um projeto pioneiro, que parte de um movimento das ruas, de ocupação do espaço público, propondo o diálogo com a cidade e as politicas públicas”, completou.