No fim dos anos 60, Miles Davis chocou críticos e jazzistas tradicionais ao quebrar o hermetismo do gênero, incorporando elementos até então impensáveis, como o piano elétrico, as linhas de baixo funkeadas e os solos roqueiros de guitarra. Esponjoso, Miles se deixava afetar por sua época, mantendo-se em constante transformação – não à toa, seu “Bitches Brew” (1970), que foge do conservadorismo estilístico, é um dos discos de jazz mais vendidos da história. “Eu preciso mudar. É como uma maldição”, chegou a dizer o trompetista em uma entrevista.

Um dos maiores talentos do jazz contemporâneo, o também norte-americano Kamasi Washington parece sofrer da mesma “maldição”. Lançado no mês passado, seu terceiro trabalho, “Heaven And Earth” é uma bomba de originalidade. O álbum duplo traz 16 canções – além de um disco-bônus oculto de 40 minutos – que mantêm a maestria do atordoante debut “The Epic” (2015) e do EP“Harmony Of Difference” (2017), sem cair no lugar-comum.

Pouco mais enxuto que “The Epic”, o novo disco mantém o paredão sonoro que caracteriza as composições do saxofonista. Lá estão lá novamente a orquestra, os sopros, os coros de voz e a “cozinha” dobrada: dois teclados, dois baixos e duas baterias.

Grandioso, o trabalho se divide entre o Céu e a Terra, como o título sugere. O lado “Heaven” abre com uma inspirada e dançante versão de “Fists Of Fury”, tema do filme de Bruce Lee, de 1972, traduzido para o Brasil como “A Fúria do Dragão”. De supetão, o ouvinte é fisgado pela mescla hipnotizante entre jazz, funk, hip-hop e afrobeat, que encontra ecos em faixas como “Hub-Tones”, “The Invincible Youth” e “One of One”.

Já o lado “Earth” começa monumental e esotérico com “The Space Travelers Lullaby”. Em seguida, surge a maravilhosa “Vi Lua Vi Sol”, que marca o início do flerte de Washington com a música latina e caribenha. A eletricidade e o groove voltam a aparecer fortemente em “Street Fighter Mas”e “The Psalmnist” .

Para fechar, “You Will Sing” mistura tudo: a grandiosidade dos coros e da orquestra se funde às linhas grovadas de baixo e do sax certeiro de Washinton. E quando parece acabar, eis que despontam as cinco faixas do escondido “The Choice”, onde o músico deságua jazz clássico.

Ao fim, fica uma sensação semelhante à que nos acomete ao fim de viagens transformadoras – e não necessariamente fáceis, tal como o disco. A vontade de repetir a dose conflita com a necessidade de absorver e refletir sobre o que passou. Afinal, muitas são as dúvidas e camadas postas ali. Mas uma certeza é latente: acompanhar a trajetória de Washington é assistir aos passos de um gigante sobre a Terra.