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Artista e agitador cultural comenta as conquistas e desafios do Centro Cultural Lá da Favelinha

“Cê tá esperando é o Kdu? O Kdu é meu amigo”, intervém My Brother, personagem conhecido do Aglomerado da Serra, enquanto aguardo à frente do Centro Cultural “Lá da Favelinha”. Minutos depois, Kdu dos Anjos me recebe, depois de gracejar com o compadre das ruas. “Já almoçou hoje? Precisa de alguma coisa?”, pergunta o artista e agitador cultural. Aos 28 anos, ele desenvolve um trabalho que é referência de empoderamento social, cultural e financeiro na comunidade. Criado em 2014, o “Lá da Favelinha” oferece dezenas de oficinas e atividades formativas que vão do funk à moda, do rap ao teatro, além de promover apresentações de variadas vertentes artísticas. O Hoje em Dia conversou com Kdu sobre política, arte e empreendedorismo na favela, além dos próximos voos do Lá da Favelinha.

Como começou sua história com a arte e a cultura? Eu sou cria de projeto. Tive a oportunidade, num projeto aqui da comunidade, de fazer teatro, violão, inglês, tênis, vôlei, natação. E sempre odiei escola, fileira, uniforme. Ia para paquerar e ser criativo. Me destacava como um rebelde, querendo liberdade. Então, com 14 anos já estava cantando rap. Comecei na igreja, mas logo ela ficou pequena para mim. Saí, montei um grupo com secundaristas no Instituto de Educação e gravamos um disco. Aí entra a principal plataforma da minha vida, o Duelo de MCs. Eu trabalhava na Asprom, tinha ganhado um computador num concurso literário. Comprava tubos de discos no Oiapoque, reproduzia, escrevia à mão “myspace.com/kdudosanjos” e vendia no Duelo. Mas aí o Duelo também ficou pequeno. Eram só 45 segundos de improviso, sempre zoando alguém. Queria mais. Então, em 2011, criei o Sarau Vira Lata. Reuni poetas para fazer poesia improvisada ou não. Tinha gente que chegava recitando Los Hermanos, aí rolava uma poesia política, outra de amor. Foi lindo, durou cinco anos. Graças a essa poesia do Sarau, eu caí para o rolê do Giramundo, com o Hot Apocalypse. Sou contra-regra há seis anos, o único que nunca faltou. Hoje, sei manipular os bonecos, de fio, de luva. Me dedico

Sobre o Lá da Favelinha, como surgiu a ideia? A Favelinha nasceu de uma oficina do Fica Vivo, em 2012. Eu pegava os melhores, os que se destacavam, e a gente se apresentava como Oficina Lá da Favelinha, que depois virou MCs da Favelinha. Em 2014, aluguei o espaço. Eu só tinha uma estante cheia de livros e uma caixinha de som. Aí montamos uma biblioteca e rolavam ensaios de rap. Em janeiro de 2015, nasceu o Centro Cultural, no lançamento de uma música do Mano Beto. Vieram mais de mil pessoas, as paredes até suavam, de tanta gente. Antes os shows eram na parte de dentro. Hoje, a gente faz na rua, porque fica insuportável. Depois, surgiram as oficinas. Inicialmente, eram só capoeira, inglês, teatro e dança. Agora temos também ioga, rap, violão, artesanato, passinho, espanhol, judô, estêncil, troca de saberes, Vogue e comunicação. São dezesseis oficinas. Nesses anos, já fizemos shows históricos, como o do Djonga, que juntou quatro mil pessoas numa terça-feira à tarde. Já tivemos Fernanda Takai, Karol Conká, BNegão, Rapadura, Hot e Oreia, Clara Lima, Sarah Guedes, Grupo Galpão. O (ex-candidato à presidência Guilherme) Boulos veio aqui também. 

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“O funk é muito a favela. É escrachado, é reboco, é tijolo à vista. Não tinha outro lugar para o funk nascer”

Com o tempo, o morro começou a conhecer a Favelinha de um outro jeito? Demais, tanto para o lado positivo quanto para o negativo. Teve uma galera que falou: “é lugar de veado, de macumbeiro, de maconheiro”. Mas, a cada dia, percebem mais que o nosso rolê é o amor. A gente não levanta bandeira religiosa, nem de política partidária. Fazemos micropolítica, num espaço de pura diversidade. Tem criança muito mais empoderada que os adultos das bolhas. Menino de 14 anos, hétero, que sabe que o vogue é uma cultura das trans, das negras, das presidiárias do Brooklyn. Tem esse respeito, essa consciência social e política. Outro dia a Tetê Moreira, do Lipstick, que é nossa professora, trouxe duas meninas trans, uma do Rio e outra de Fortaleza. Na hora que soltei a notícia, todo mundo da quebrada desceu. Porque sabem que é tipo, sei lá, o Sassá, do futebol, estar aqui. A molecada está mais ligeira para tudo. Gênero, droga, política. Outro dia, estavam dando um show de política. Uma menina, pretinha, que frequenta um projeto cristão, falou que o Bolsonaro era bonzinho. Aí as próprias crianças explicaram para ela, “Ou, nada a ver. Cê é preta. Fica esperta”. E os adultos só olhando, pianinhos. Outro dia perguntaram para outra menina, de 16 anos: “Cê gosta de mulher ou de homem?”. Ela disse: “Sai fora, sô. Eu gosto é de gente”.

A Favelinha tem vários projetos e eventos. De rap a arraiá, de funk à moda. Como eles se misturam? A gente faz muito rap e funk. A “Disputa Nervosa”, que são os duelos de passinho, e o “Favelinha Fashion Week” fazemos mais para fora, vendemos. Mas os editoriais da Fashion Week são todos feitos na comunidade, só desfila quem é da comunidade. E todo mundo quer desfilar. A galera fica com raiva de mim quando não desfila. Eu fico muito feliz, porque é um empoderamento real da galera, de se achar bonita, de ganhar uma graninha. Digo sempre que o nosso empoderamento é muito financeiro. Não adianta falar de empoderamento e política na favela com as panelas vazias. Então, a gente foca muito no empreendedorismo. Nos eventos em geral, todo mundo ganha, ainda que uma mixaria. A Fashion Week gera renda para umas 50 pessoas. A gestão é toda colaborativa, só cinco oficinas são remuneradas. Somos 22 voluntários, sendo quatro homens. A Favelinha é muito feminina. Uma coisa que está muito interessante é o “Remexe”, cooperativa de moda upcycling que a gente fez. É moda reciclável, roupas criadas a partir de outras roupas. A gente faz mochila com calça jeans. Vendemos por R$ 90 e a costureira ganha R$ 50. Para uma costureira tirar R$ 50 com mochilas tem que fazer dezenas de peças. Aqui, com uma sentada na máquina, ela tira isso. E a maioria era empregada doméstica, que virou costureira. Hoje, estamos em um curso de extensão na Fumec, elas estão estudando moda e design. A gente não escolhe gente capacitada, ajudamos a capacitar. E a galera abraça as oportunidades. Com a “Disputa Nervosa”, por exemplo, dançamos uma semana dessas de terça a domingo. Quem dançou os seis dias ganhou quase dois mil reais.

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“A arte é muito importante para a periferia. É um transformador social, um gerador de oportunidades”

Você diz que o funk hoje é sua principal inspiração. Quais potências e desafios que ele traz? O funk é o que mais me inspira e mais me põe na discussão. Outro dia, fiz uma música de 150 bpm para um DJ e minha prima me fez refletir muito. Falou: “Ou, eu não boto fé nesses funks que você faz”. Ela fala assim, bem tosco: “Eu vou para o Baile do Serrão, lá só toca 150, e as meninas tudo senta”. Ela disse que esse “sentar” dentro do baile a galera entende, mas fora dele é muito machista e homofóbico. Ao mesmo tempo, o funk gera renda e empodera muita gente na favela. Tem a Negona, por exemplo, que é das nossas melhores dançarinas. Tem 16 anos e a renda da família vem toda praticamente da Favelinha. Então, o que eu faço é puxar discussões sobre machismo e homofobia, evoluir, falar da dança. O funk é muito a favela. É escrachado, é reboco, é tijolo à vista. Não tinha outro lugar para o funk nascer. O grave treme os barracos. 

O Levante Lá da Favelinha é um projeto de extensão do espaço físico? Nosso espaço é pequeno, não estão cabendo mais as pessoas e as demandas. Nas aulas de ioga, as mães têm que abrir os braços na diagonal, porque não cabe. E são entre dez e 15 mães, num aglomerado de 50 mil pessoas. É muito pouco, diante da grandiosidade da comunidade. Por outro lado, entendo que é favela. Não tem que ter escritura, não tem como entrar num edital para construir um prédio arquitetônico. E vemos que muita coisa não funciona por conta de burocracia. Então, fizemos uma campanha de financiamento coletivo, que vai até dia 10 de novembro. Precisamos de R$ 108 mil e já captamos mais de R$ 45 mil. Pedimos o mínimo de R$ 10, mas a média das doações tem sido de R$ 100. Acho que vamos bater a meta. A favela é barulhenta, é cachorro latindo, música tocando, pedreiro batendo laje. Então, têm oficinas que não funcionam no primeiro andar, no nível da rua. Vamos passar essas oficinas para o terceiro andar e, no segundo, continua funcionando o “Remexe”. No primeiro, ficam algumas oficinas, a venda de roupas e comidas, a biblioteca e o acesso à internet. Na frente, vai ter um parklet também. 

Como você vê a importância de fomentar a arte e a política na periferia? O crime vira exemplo porquê? Porque os meninos têm grana, roupas legais, acesso às paqueras. Agora, os meninos da Favelinha também têm roupas legais, grana, paqueram e ainda viajam. É uma referência real de futuro. Tem um menino de 19 anos que disse: “Eu me considero um dos melhores dançarinos do Brasil, mas tô ligado que daqui há uns seis anos meu joelho não vai aguentar mais. Aí eu vou querer ser igual o Kdu”. Então, tenho consciência de que o que eu faço inspira muita gente. Ainda tem muito talento parado na favela. Eu rodava o Brasil cantando rap, voltava para a quebrada e via amigos fumando crack na porta de casa, gente cheia de potencial vendendo droga. E eu lá, cantando meu rap tilelê para a galera rica, branca, vegetariana, cientista social. E a galera daqui? Muita gente aprendeu na dor, mas não precisamos mais de exemplos de dor. A gente precisa de exemplos vitoriosos. Sobre consciência política, a periferia tem que entender que dez anos atrás, na favela, as casas não tinham azulejo. Era tudo cimento batido. A gente não comia carne diariamente, as televisões mal funcionavam com bombril atrás. Universidade, a galera perguntava se era de comer ou de passar no cabelo. Ninguém sabia nem o que era. Hoje, tá cheio de gente da favela na universidade. Todas as casas têm saneamento básico, acabamento, TV, internet, comida na mesa. E a nossa galera está se capacitando para o mercado e para a vida. Politicamente falando, a arte é muito importante para a periferia. É um transformador social, um gerador de oportunidades. A gente tem que se armar é com arte. Esse discurso de achar que armar a população vai resolver a violência, a gente vê no dia a dia que não dá certo. Temos que buscar informação, que ir pelo amor. Ódio não resolve nada.