Na capa do disco, um par de tênis velhos. Nada mais simbólico para um trabalho que permaneceu mais de quatro décadas guardado “num cantinho da memória” de Lô Borges, um dos criadores do Clube da Esquina, que não revisitava aquele repertório até um convite fazê-lo despertar novamente para o seu primeiro trabalho solo, lançado em 1972.
 
“Era um adolescente na época. Tinha de 19 para 20 anos e saí do processo muito estressado, pois não tinha nenhuma música pronta quando comecei a gravar. Escrevia de manhã, ensaiava a tarde e, à noite, já entrava no estúdio valendo. Foi uma correria, fazendo muita música em pouco tempo”, recorda Borges, que fez as pazes definitivas com o disco no palco do Circo Voador, no Rio de Janeiro, no ano passado.
 
O show “Tênis + Clube”, atração de hoje no Sesc Palladium, reúne as 15 faixas do “disco do tênis”, como ele ficou conhecido, e o que, nas palavras do cantor mineiro, representa o seu lado oposto – as músicas gravadas, no mesmo ano, para o LP “Clube da Esquina”, que lançou o movimento nacionalmente. “O primeiro é um trabalho underground, que você não digere de primeira. O segundo já é mais solar, de fácil acesso ao público”, compara.
 
Esse retorno ao passado só foi possível pela devoção do cantor e compositor Pablo Castro ao “disco do tênis” e ao trabalho de Borges. “Comecei a pensar em fazer algo com ele há cinco anos, quando a organização do Virada Cultural pediu um show com aquele repertório, no Theatro Municipal de São Paulo. Não topei porque o prazo era curto para algo que demandava uma coisa mais trabalhada e pesquisada. Mas, ao encontrar o Pablo, a ideia tomou forma”, registra.
 
Do álbum “Clube da Esquina”, o repertório contará, entre outras, com “O Trem Azul”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “Tudo que Você Podia Ser” e “Nuvem Cigana”. Borges incluiu ainda a canção “Para Lennon & McCartney”, de sua autoria com Márcio Borges e Fernando Brant
 
Flashback
Castro havia escrito um prefácio para o songbook de Borges, mas a dupla não tinha se conhecido pessoalmente. Numa primeira conversa, o “disco do tênis” veio à tona e Castro pôs à disposição a banda dele para levar o projeto adiante. Quando Borges ouviu que todos integrantes adoravam aquele vinil, imaginou que se tratava de força de expressão. Mas ao entrar na sala de ensaio, teve a sensação de estar diante de um flashback.
 
“Fiz uma viagem ao passado, com tudo sendo fielmente reproduzido. No ensaio seguinte, já estava com eles. Quem vai ao show e conhece o disco, se fechar os olhos vai imaginar estar ouvindo o vinil. Os caras tiraram exatamente igual ao original”, elogia Borges.
 
Para o cantor mineiro, o show poderia se chamar “O Ano de 1972”, por justamente registrar o trabalho musical feito naquele período de início de carreira. “Poderia ter entrado no Guinness Book, já que gravei, com apenas 20 anos, 24 músicas em 1972. Eu tinha uma grande compulsão por compor, que era a minha forma de lidar com o mundo. Aos 66 anos, continuo assim: fazendo e buscando coisas novas. Sou um artista em ebulição”, assinala.
 
SERVIÇO
Lô Borges – show de lançamento do DVD “Tênis + Clube”. Hoje, às 21h, no Grande Teatro do Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1046). Ingressos: de R$ 70 a R$ 90 (inteira) e de R$ 35 a R$ 45 (meia).