A cozinha é o ambiente propício para personagens se livrarem das amarras e aceitarem uma mudança radical em suas vidas, adicionando mais sabor a elas. Geralmente são chefs dedicados, que deixam as questões pessoais em segundo plano e não são reconhecidos como deveriam por sua criatividade e empenho ao redor do fogão. Carl Casper faz parte dessa estirpe.

Protagonista de “Chef”, lançado agora em DVD e Blu-ray, o cozinheiro vivido por Jon Favreau se vê tolhido diante de um proprietário de restaurante (Dustin Hoffman) que não aceita mudanças no menu há dez anos. A gota d’água é um texto nada elogioso de um blogueiro crítico de gastronomia. É assim que aceita uma sugestão da ex-mulher e amiga (Sofia Vergara) para abrir... seu trailer de comida.

Tirando essa aparente contradição, já que Casper venderá um tipo de produto (sanduíches) em sua lanchonete sobre quatro rodas, servindo muitas vezes de pretexto para merchandising dos mais diversos produtos, o filme até pode ser bem digerido – especialmente em sua “entrada”, quando Favreau, também diretor, envolve seu personagem com pitadas de cinema independente.
Eterno coadjuvante gordinho e engraçado, Favreau fez algumas comédias românticas agridoces como “Swingers: Curtindo a Noite” (1996) e “Amor aos Pedaços” (2000), em que seus papéis se aproximavam muito de Casper: o desajeitado boa gente que fica no meio do caminho na profissão e na vida amorosa e que precisa de uma chacoalhada para mudar de rumo.

A construção da persona do chef parece apetitosa, mostrando-o como uma pessoa que ficou parada no tempo, sem saber lidar com a tecnologia ou com o próprio filho. A demissão lhe obriga a rever essas ações, com o roteiro abraçando um velho recurso de busca interior: a estrada. Literalmente, ele respirará novos ares.

Participações

Depois de uma edição ágil, diálogos espirituosos e participações especiais (Scarlet Johansson e Robert Downey Jr), “Chef” exagera na segunda parte, passando a se arrastar durante as viagens pelos EUA. A necessidade de mostrar sabores típicos de algumas regiões tira o gosto daquilo que deveria ser o prato principal: a maturidade representada pela reaproximação do filho.

Favreau gasta muito tempo para chegar a um desfecho que bem sabemos qual será. E as provações de Casper acabam resultando num manual de autoajuda, uma versão light de “Comer, Rezar, Amar”, que também mistura viagem e comida na busca de autoconhecimento. E quando já nos damos por satisfeitos, vem a dispensável lição de que é preciso saber absorver as críticas para alcançar o desenvolvimento.