Seis vezes vencedor do Prêmio Jabuti, o jornalista e escritor Laurentino Gomes se debruçou mais uma vez sobre um período da história do Brasil. Desta vez, porém, o tema extrapola as fronteiras brasileiras e se desdobra como parte da história mundial: a escravidão. Para tratar desse período obscuro da civilização, o autor se aprofundou durante seis anos em uma pesquisa intensa, que envolveu viagens para 12 países de três continentes, pesquisas em bibliotecas, conversas com historiadores e cerca de 200 livros lidos.

O resultado da empreitada, que dará origem a uma trilogia de reportagens, já ganhou o primeiro volume “Escravidão I – Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares”, que será lançado hoje no projeto “Sempre Um Papo”, em Belo Horizonte. Em conversa com o Hoje em Dia, o escritor falou sobre suas motivações, descobertas e sobre os anos de pesquisa. 

Como surgiu o desejo de escrever sobre a escravidão? 

Escrever sobre a escravidão foi uma decorrência natural da minha primeira trilogia de livros. Nas minhas obras anteriores, eu tinha me dedicado a estudar três datas importantes para a construção do Brasil de hoje: 1808, 1822 e 1889, ou seja, os três momentos fundamentais para a construção do nosso país como nação independente no século 19. Essas datas ajudam a explicar a maneira como nos constituímos do ponto de vista legal, institucional e burocrático. Porém, para entender os aspectos mais profundos da nossa identidade nacional, é preciso ir além da superfície, observar o que fizemos aos nossos índios e negros, quem teve acesso às oportunidades e privilégios ao longo da nossa história, e como a sociedade e a cultura brasileiras foram se moldando desde a chegada de Pedro Álvares Cabral na Bahia até os dias de hoje. Ao fazer isso, eu me dei conta de que o assunto mais importante da nossa história não são os ciclos econômicos, as revoluções, o império ou a monarquia. É a escravidão. O trabalho cativo deu o alicerce para a colonização portuguesa na América e a ocupação do imenso território. Também moldou a maneira como nos relacionamos uns com os outros ainda hoje. Neste início de século 21, temos uma sociedade rica do ponto de vista cultural, diversificada e multifacetada, mas também marcada por grande desigualdade social e manifestações quase diárias de preconceito racial. Isso, no meu entender, é ainda herança da escravidão.

Como você pontuou, o período escravagista deixou reflexos na sociedade atual. Esse é um dos motivos pelos quais você destaca a importância de compreender esse processo? Quais contribuições a sua obra pode trazer?

A escravidão não é um assunto acabado, bem resolvido e congelado no passado. Ainda está vivo entre nós, como se pode ver nos discursos de campanhas eleitorais e nas discussões diárias que aparecem nas redes sociais. O preconceito é uma das marcas das nossas relações sociais no Brasil, embora sempre procuremos disfarçá-lo construindo mitos a respeito de nós mesmos. Tudo que fomos no passado, o que somos hoje e o que seremos no futuro tem a ver com as nossas raízes africanas e a forma como nos relacionamos com elas. Espero dar uma contribuição pessoal para o desafio brasileiro de encarar a própria história escravagista e dela tirar lições que nos ajudem a construir o futuro.
 

Uma das coisas que chama a atenção na sua pesquisa é a quantidade de países que você percorreu. Como você construiu esse roteiro? Por quais lugares você passou e qual a relação deles com o período escravagista?

Estive em Cartagena, na Colômbia, que foi o principal porto negreiro do antigo império colonial espanhol. Depois percorri o sul dos Estados Unidos, cenário da Guerra da Secessão, em que mais de 750 mil pessoas morreram para que a escravidão fosse abolida pelo presidente (Abraham) Lincoln. Em seguida, morei em Portugal durante seis meses. A partir dali fiz cinco viagens a oito diferentes países africanos: Cabo Verde, Senegal, Marrocos, Angola, Gana, Benim, Moçambique e África do Sul. Também estive em Londres e Liverpool, na Inglaterra, que foram grandes centros de construção e financiamento de navios negreiros até o final do século 18. Além disso, percorri o Brasil, visitando, entre outros lugares, quilombos no estado da Paraíba, usinas e engenhos de cana-de-açúcar em Pernambuco e na Bahia, a Serra da Barriga, em Alagoas, onde morreu Zumbi dos Palmares, o Vale do Paraíba, em São Paulo, as antigas minas de ouro e diamantes em Minas Gerais e o Cais do Valongo, que foi o maior porto negreiro das Américas no século 19. Em resumo, fiz uma gigantesca reportagem jornalística, com esse primeiro volume em 2019 e outros dois a serem publicados sucessivamente em 2020 e 2021.
 

Como foi abordar um tema tão pesado e triste da nossa história? Além de toda a carga histórica desse período, o que o leitor pode descobrir com essa obra?

A escravidão é, de fato, um tema doloroso, repleto de sofrimento e crueldade. Ao mesmo tempo, existem aspectos curiosos e instigantes nessa história, que poucas pessoas conhecem. Quase ninguém sabe, por exemplo, que até o fim do século 17 a maioria dos escravos no mundo era branca. A própria palavra “escravo” (“slave”, em inglês, ou “slavus”, em latim) deriva de “eslavo”, povo branco, de olhos azuis, escravizado no leste da Europa e vendido na bacia do Mediterrâneo, aos milhões, desde a época dos romanos. No meu livro existem personagens e acontecimentos que certamente vão surpreender os leitores, caso do rei do Mali, um dos grandes impérios africanos. Dois séculos antes de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, ele tentou chegar ao Brasil atravessando o Atlântico numa flotilha improvisada de canoas. Ou da rainha africana Jinga, que comandou milhares de guerreiros homens e infernizou a vida dos portugueses em Angola no século 17, e hoje é uma heroína do movimento comunista que fez a libertação do país, na década de 70. Histórias como essa ajudam a jogar luz, atrair e reter a atenção dos leitores para um assunto com o qual todos nós, brasileiros, deveríamos nos preocupar. O Brasil foi construído com trabalho cativo, primeiro indígena e depois africano. O legado da escravidão persiste entre nós ainda hoje, na forma de preconceito, exclusão social, ou, pior, de autonegação, como se o tema não existisse ou não merecesse ser estudado. Todos nós que estamos vivos hoje somos descendentes de escravos ou senhores de escravos.
 

Durante a pesquisa e suas viagens, algum fato te surpreendeu mais?

Brasil e África já estiveram mais próximos. Até o fim do século 19, havia rotas regulares de navios entre Salvador, na Bahia, e a Nigéria, por exemplo. A Angola tentou aderir à independência do Brasil, em 1822. O intercâmbio econômico e cultural era bastante intenso nessa época, muito em consequência do próprio tráfico negreiro. Hoje, essas relações estão mais frias, mas marcas brasileiras são bem visíveis no continente africano. Em Gana e no Benim encontrei uma numerosa comunidade de descendentes de ex-escravos retornados durante o século 19. Ocupam posições importantes na hierarquia social. Alguns foram presidentes, ministros, governadores. Esses ex-escravos deixaram também contribuições importantes na arquitetura, nas artes e nos costumes em diversos países. Na cidade Porto Novo, no Benim, por exemplo, há uma mesquita muçulmana com traços arquitetônicos de igreja católica brasileira. Foi construída por escravos libertos da Bahia, que tinham por ofício erguer templos católicos no Brasil e levaram sua técnica de construção para a África. Essa influência continua muito forte ainda hoje. As novelas da Rede Globo têm uma audiência enorme nos países de línguas portuguesa. Ao ponto de alterar o sotaque e o idioma nesses locais.

Serviço
Sempre Um Papo recebe Laurentino Gomes
Data:  quarta-feira (9)
Horário: às 19h30
Local: no Teatro Sesiminas (Rua Padre Marinho, 60 - Santa Efigênia) 
Entrada gratuita.

Confira alguns registros das viagens feitas pelo autor durante a pesquisa para a trilogia: