Você que achava que cerâmica era apenas para enfeitar a casa ou deixar a mesa do jantar mais charmosa precisa conhecer a obra do ceramista, cartunista e jornalista português Rafael Bordallo Pinheiro (1846-1905). Um grupo de 20 artistas plásticos brasileiros mergulhou nessa pesquisa e se contagiou com a proposta lúdica e crítica do criativo representante "d’além mar". O resultado será mostrado a partir de hoje, até 28 de julho, na exposição "Universo Bordallo Pinheiro – 20 Bordallianos do Brasil" no Museu de Artes e Ofícios.

O "naipe" dos artistas convidados para a experiência vai de Vik Muniz, o nome do "Lixo Extraordinário"; passando por Tunga, dono de várias instalações em Inhotim e mundo afora; e pela estilista Isabela Capeto. Depois de BH, a mostra segue para o Rio e São Paulo e encerra oficialmente o ano de Portugal no Brasil.

Os artistas fizeram residência durante 20 dias na fábrica Bordallo Pinheiro, fundada em 1884, em Caldas da Rainha, região central de Portugal.

Quem é esse cara?

Bordallo fazia faianças, um tipo de cerâmica semelhante à porcelana, mas menos resistente, mais barata e capaz de receber cores vivas. Por causa dessas características, o artista português deitou e rolou com sua criatividade sobre essa arte.

Os artistas brasileiros também trabalharam com a faiança. "A marca dele é nas cores. Ele era um naturalista. Na obra dele nascem coisas muito loucas para essa técnica de cerâmica que vão de cobras, lagartos e folhas de couve", cita o diretor de Marketing da Faianças Bordallo Pinheiro, Nuno Barra.

Entre as peças criadas por Bordallo está o marrento Zé-Povinho, um personagem típico, que fica estagnado na vida e diante das escabrosidades da política. O personagem feito em faiança é o símbolo da autocrítica do povo há várias décadas no país.

Verões e história

Em algumas casas brasileiras ainda é possível ver andorinhas de porcelana nas paredes. Pois esse desenho e uso, hoje considerado "kitsch", também é atribuído à criação de Rafael Bordallo.

"Andorinha em faiança foi um outro símbolo. Em Portugal, há muita andorinha. Ele achou que eram pássaros interessantes. Punha essas aves nas casas para dar boa-vindas", diz Barra.

A ideia de chamar gente nova para falar sobre a obra do português começou em casa, há dois anos, com a "Coleção Sete Bordallianos". No caso, sete artistas contemporâneos da "terrinha" fizeram o que os brasileiros agora se propõem.

Museu de Artes e Ofícios (Praça da Estação, Centro). Visitas às terças e sextas, das 12 às 19h, quartas e quintas, das 12 às 21 horas; sábados, domingos e feriados, das 11 às 17 horas. Até 28/7. Entrada franca.

Artistas falam de suas experiências bordallianas

O artista plástico Vik Muniz afirma que a faiança é um material profundamente simbólico da continuidade de valores dentro de uma família através de gerações, tanto pela sua fragilidade como pela sua hereditariedade.

"Me recordo perfeitamente da dor que minha mãe sentia cada vez que alguma louça antiga se quebrava em casa. Com os objetos iam-se memórias. Os resíduos e traços de todos os antepassados que haviam usado tais louças, enfim, era como se toda uma estirpe genética se desintegrasse", relata o criador de "O Colador de Cacos".

Já o paraense Tonico Lemos Auad, ao fazer a peça "Sermão dos Peixes" expõe que a ideia da obra era alterar o conteúdo religioso da peça original a tornando um pouco mais abstrata. "Algo como uma escultura de ondas que referencia uma paisagem marítima bastante característica, portuguesa e brasileira", diz, traçando o paralelo.

Em "A Última Lagosta", a artista plástica Maria Lynch, faz o que ela chama de "Antropofagia animal". "Peguei todos os animais que são ícones da produção de faiança Bordalliana e usei".

Entre esses animais típicos, aponta, a lagosta é um dos mais icônicos. "Inverti a escala dos bichos e os fiz comendo a lagosta. Nos faz pensar que nós somos os próximos a atacar esses animais comestíveis, que ali se encontram, numa bandeja, prontos para entrarem no forno", explica a artista.