A mente viaja rapidamente para os morros do Rio de Janeiro e para a Marquês de Sapucaí ao se pronunciar a palavra “samba”. No caso do baterista e cantor Wilson da Neves, carioca da gema e um dos grandes nomes do estilo, falecido no último dia 26, a rota sofreu um atalho, desembocando em Minas Gerais.

“É engraçado que são mineiros que estão fazendo o primeiro longa sobre o cara”, diverte-se o produtor Guilherme Fiúza, ao falar do documentário “O Samba é Meu Dom”, dirigido por Cristiano Abud. Em fase de finalização, o filme começou como uma boa roda de samba, com uma música puxando outra.

O projeto, sugerido pelo produtor musical Alexandre Segundo em 2009, parecia não ter data para se encerrar, envolvendo-se com cada novo trabalho musical de Wilson das Neves. A despeito da idade (ele morreu com 81 anos), o instrumentista era um “menino” entusiasmado com o samba.
“O Alexandre tinha desenvolvido uma relação com o Wilson e queria contar a carreira dele, mas não sabia o que seria. Pensara num livro, a princípio.

Como ele gravou entrevistas em vídeo com várias pessoas ligadas ao Wilson, encaramos o desafio de fazer um documentário”, lembra Abud.
Mas logo o baterista entrou em estúdio para gravar um CD e os realizadores acharam por bem não perder esse registro. Depois surgiu a oportunidade de filmar um show ao lado da Orquestra Imperial. “E foi assim por seis anos. Chegou uma hora em que decidimos parar”, diz Abud.

Os custos também já pesavam no bolso dos produtores (cada um tinha gasto R$ 50 mil), apesar de as leis de incentivo terem virado as costas para o projeto. “Achávamos que só o nome dele abriria as portas. Era mais conhecido, porém, dos entendidos de música, dos fãs de samba”, lamenta o diretor.

Morte gera interesse

A morte de Wilson de Neves pôs o filme novamente no radar. “Muita gente começou a nos escrever de volta, gerando uma disputa entre canais de TV”, assinala Fiúza, que também contou com R$ 197 mil para finalização, oriundos do edital do Itaú Cultural–boa parte deste valor gasto em direitos de músicas.

“O filme mostra bem a intimidade de Wilson, com ele em sua casa, exibindo o seu jeito de ser, o cotidiano dele. Wilson é um sábio, um orixá. Não tem nada que saia de sua boca que não é pensado”, destaca Fiúza, que mostrou um primeiro corte do documentário para Wilson, pouco antes de ele morrer. “Queríamos que recebesse as flores em vida, mas não deu. De toda forma, ficou satisfeito com o que viu do filme”, garante Abud.