Pouco mais de três meses após o rompimento da barragem da Mina do Feijão – tragédia que deixou 233 mortos e 37 desaparecidos em Brumadinho – o Instituto Inhotim lança programação cultural de 2019. E o encarregado da abertura do programa é o cantor pernambucano Lenine, que apresenta amanhã o espetáculo “Em Trânsito”. Para ele, o repertório é uma escolha certeira para o momento vivido pela cidade.

“O próprio projeto diz sobre estar em trânsito. Todos nós estamos em movimento e é preciso continuar assim. A vida segue”, pondera.

Assim, para seguir em frente, destaca a importância da reocupação do museu, que além de um relevante instrumento cultural, é uma das principais fontes de renda para a população de Brumadinho.

“Tive a oportunidade de voltar, há pouco tempo, à Vila de Regência (no Espírito Santo), na foz do Rio Doce, e ver a que distância esse tipo de catástrofe pode chegar e como chega. Pude também conhecer um poco da vida de quem dependia exclusivamente do rio”, recorda.
Com essa lembrança em mente, Lenine reitera a necessidade de celebrar Inhotim e o fato de que o espaço não foi atingido pelos rejeitos da barragem. “Ele é fundamentalmente um bem, com o acervo que se tem, com o viés de arte dialogando com a botânica”.

Além do contexto significativo, o pernambucano comemora o retorno a Minas Gerais. “Na época do lançamento do ‘Em Trânsito’ estive em Belo Horizonte, mas agora a minha vinda tem o sabor especial de poder mostrar o meu projeto em um lugar como Inhotim”, afirma.
 

Repertório

O disco “Em Trânsito”, que compõe o repertório da apresentação no museu, chegou às plataformas digitais em maio do ano passado, mas antes mesmo de ser transformado em álbum teve como berço o palco. O caminho incomum é visto por Lenine como um movimento natural. “Procurar percursos diferentes é algo que está na cerne do meu trabalho. É isso que dá sabor a tudo”, justifica.

Os mais de 30 anos dedicados à música reforçam a opção do pernambucano por um caminho diferente – que vai na contramão do costumeiro – geralmente o lançamento de um disco e, depois, a apresentação ao vivo do trabalho. “Depois de muito tempo exercendo uma atividade, é comum você sentir uma sensação de repetição. Ao longo dos anos fui pulando esse sentimento, primeiro percebendo que o importante não é chegar em algum lugar, mas sim o percurso que você escolheu fazer e a maneira que fez”, acredita.

No caso de “Em Trânsito”, o percurso escolhido por Lenine foi fundamental para guiar a forma e o sabor do trabalho. “Antes de tudo eu tinha que fazer uma falsa apresentação. Começar com uma canção bem doce e lúdica, assim fiz ‘Leve e Suave’, que na versão original não é assim. Em seguida ‘Sublinhe e Revele’, que já é um rock. A sequência tinha que trazer esse relevo de um espetáculo”, explica.

Outra característica é a adequação ao próprio contexto em que foi lançado. Além de canções que refletem os momentos vividos pelo país – como a canção “Intolerância”, escolhida como o primeiro single do álbum – “Em Trânsito” também dialoga com as novas formas de consumo da música. “Ele teve isso de corroborar a contemporaneidade e as grandes interrogações que temos. Até pouco tempo atrás você fazia um disco, o show e depois de um ano transformava em DVD. No caso de dele, foi tudo ao mesmo tempo”, conta.

Serviço: Lenine apresenta “Em Trânsito”, neste sábado, às 15h30, no Inhotim (Rua B, 20 – Brumadinho). Ingressos: R$ 44 (inteira), R$ 22 (meia)