Integrante de um dos maiores movimentos da música brasileira – o Clube da Esquina –, o letrista Márcio Borges conversou com o Hoje em Dia a respeito da cena musical atual e de como a crise está afetando o setor cultural. Com olhar crítico, ele ainda comentou sobre a conjuntura política e o pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Contudo, o que o levou a encher os olhos d’água foi falar sobre a perda do compositor Fernando Brant. Aos 69 anos, Borges diz que, em 2016, quer passar mais tempo em seu sítio no interior, em Bocaina de Minas, onde se sente mais inspirado para encarar novos projetos.
 
Estamos vivendo uma crise econômica que respinga em todos os setores. Ao mesmo tempo, alguns espetáculos realizados em Belo Horizonte têm registrado casa cheia. A que credita esse, digamos assim, fenômeno? As artes entrariam como uma válvula de escape em tempos difíceis?
 
Acho que esta crise é muito artificial, é muito provocada em Brasília pelos políticos, por aquela jogatina política, apostando quem é mais corrupto do que o outro. A cultura e a arte não têm nada a ver com esta bagunça, são demandas primordiais do ser humano. Então, a música boa sempre vai ter lugar. A música sempre foi uma grande motivadora de todas as grandes emoções e revoluções humanas. A música sempre caminhou junto deste sentimento de resistência a qualquer crise, à guerra, à corrupção, à ladroagem. A arte é sempre uma resistência. Não acredito nela como um prêmio de consolaçãoou uma válvula de escape. A arte e a religião são as únicas válvulas de escape do ser humano. Não uma válvula para escapar nada, mas uma válvula pela qual as coisas entram. É por isto que o povo vai (ao espetáculos); não é uma forma de esquecer a realidade, mas uma forma de ver outro aspecto da mesma realidade.
 
E no caso dos artistas e produtores, como a crise vem afetando a produção e a circulação de espetáculos?
 
Me lembro de épocas nas quais os produtores culturais estavam muito mais ativos, mais produtos culturais estavam rolando, as leis de incentivo funcionavam mais plenamente, as secretarias de cultura tinham grandes editais. Aqui, por exemplo, o que eles fizeram foi descontinuar as coisas, mas não é por falta de capital. Na verdade, existe cada vez mais a concentração de capital absurda nas mãos de uns poucos.
 
O Hoje em Dia fez uma matéria com pessoas que acompanharam a Semana do Clube da Esquina e havia, por exemplo, uma garota de dez anos. Como vê a renovação do público que gosta do Clube da Esquina? O que garante a atemporalidade das canções?
 
Graças ao trabalho do Milton, Lô, Toninho Horta, Fernando Brant, Ronaldo Bastos... estas canções foram se aninhando no coração do povo brasileiro, foram passando pelas gerações. O Bituca fala uma coisa linda: “me dê uma paisagem maravilhosa e coloque uma pessoa normal na minha frente. A minha vista vai ser atraída pela pessoa e não pela paisagem maravilhosa”. Isto é uma vontade de comunicar, de estar perto, que transmitiu para a nossa música, além do fato de a gente ter feito canções realmente antológicas e duráveis. O nosso repertório, juntando os principais artistas do Clube da Esquina, dá mais de 600 canções. É mais do que natural que isto se manifeste mesmo como acervo cultural e sentimental do povo brasileiro. 
 
Na última semana, o YouTube divulgou a lista dos dez vídeos mais assistidos no país este ano. E, embora haja uma movimentação grande de cantores que seguem defendendo a MPB, hoje, estes não aparecem nela. 
 
Acho que isso faz parte de um trabalho de emburrecimento e embrutecimento da sensibilidade brasileira, que vem sendo desenvolvido sistematicamente desde a ditadura militar. Sistematicamente tem sido injetado estas grandes doses de imbecilidade geral. Não estou querendo chamar, com isto, os nomes que aparecem de imbecis. Pelo contrário, acho que são brilhantes. A organização profissional é admirável. O que não é admirável é a qualidade da música que se manifesta atrás desta grande organização. Acho que poderia ter mais esforço, mais sensibilidade, mais apelo a uma história gloriosa da música brasileira, que é o que fez a fama cultural do Brasil no exterior, que vem desde Carmen Miranda. Ela tinha uma levada brasileira, como João Gilberto, Jobim, Johnny Alf... O que parece é que alguns deles (artistas novos) não têm a mínima ideia de que isto existiu um dia. Porque se soubessem, isso, de alguma forma, os influenciaria, porque é impossível não ser influenciado por coisas tão geniais. Agora, ser refratário a estas influências não é culpa da pessoa, mas de uma sociedade que foi se embrutecendo cada vez mais, independentemente de governos. Acho que estes nomes citados (na lista) são subprodutos desta grande desgraça mundial. Não vou parar para ver show destes caras, assim como eles não vão ver os meus e nem minhas palestras. Então, estamos no mesmo nível: eles não me veem e não os vejo, mas desejo a eles as melhores vibrações do mundo, porque a bola está com eles agora. O meu trabalho já está feito. Agora, quem quiser comparar, compara.
 
Particularmente, há algum movimento musical que te interesse, que te chame atenção?
 
A nova cena da música belo-horizontina está me encantando muito. Começo (citando) Pablo Castro, que acho que é um dos grandes talentos desta geração. Já pulo para o parceiro dele, o Makely Ka, que é outro cara inspiradíssimo, politizado, vibrante. Do Makely, pulo para o seu parceiro, o Kristoff Silva, que faz uma música intrigante – o Lô que me falou: “Marcinho, você tem que ouvir um tal de Kristoff Silva”. Fui ouvir e disse: “realmente ele é o tal”. Vitor Santana, Brisa Marques, Thiago Delegado, Marcos Frederico, estas pessoas estão compondo a cena atual. Isto tudo é jovem. A cena belo-horizontina está quentíssima. E outra coisa: não são todos fãs do Clube da Esquina. Inclusive, eles têm impressões críticas em relação à nossa obra e é bom que tenham mesmo; fazem bem em ter porque assim eles evoluem e vão para frente.
 
Estamos vivendo tempos difíceis, de muita agressividade e violência no mundo. Você vê luz no fim do túnel?
 
Acho que a violência não é inata. O cara que se tornou um marginal e assassino teve um outro que cuidou dele até ele poder se sustentar com as próprias pernas. Não estou defendendo a marginalidade. Só estou dizendo que ninguém nasce mau. Não é aquela coisa reducionista de que o homem é o produto do meio, mas o meio é uma grande forja de onde surgem as individualidades, não é homogêneo, porque do mesmo meio pode sair um bandido e um benfeitor da humanidade. Tem vários nutrientes esse crescimento do ser. Acho que o motivo número um que gera todas as violências é a ganância do ser humano pelo o que não é dele.
 
Gostaria que falasse sobre essa turbulência que atinge a cena política hoje (acusações diversas de corrupção, pedido de impeachment...). Qual a sua opinião?
 
Tenho um bom relacionamento com os dois lados. Fui amigo de juventude da Dilma e fui amigo adulto do Aécio. Então, eu digo isso com maior isenção e não culpo ninguém: acho que cada um está jogando seu jogo. Quem está nesse ringue da política está porque quer, porque gosta disso e está preparado para isso. Eles defendem cada um o seu ponto de vista com toda garra. Acho que essa história – primeiro de mensalão, depois de petrolão e depois de ver as extensões disso – é uma coisa que praticamente faz parte da instituição do Estado brasileiro, essa corrupção é endêmica, ela vem desde o Império, desde Pedro II. É uma coisa que está sendo colocada às claras agora, pressionados pela opinião pública, pelos Ministérios Públicos, que adquiriram realmente mais poder do que tinham. Ficou mais escancarado para o eleitor. Aí, o eleitor se radicalizou, se dividiu de acordo com suas convicções: “defendo o PSDB até o fim dos meus dias’’ e “eu sou petista e defendo o projeto do Lula e da Dilma até num sei o quê”. Eu não sou político. (Mas) sou contra o impeachment. Acho que é tudo uma grande hipocrisia, um grande jogo de carta marcada, ou seja, “vamos investigar até aqui, só até a parte que a gente não tá envolvido’’. Está errado. Investiga tudo, prende todo mundo, começa tudo de novo. Por mim, podem ir todos eles.
 
Como vocês, clubistas, estão hoje, passados seis meses da perda de Fernando Brant?
 
Cada um de nós ficou mais compenetrado do valor da amizade, da exiguidade do tempo que nós temos; porque nós somos mortais. O fato é que ela (a morte de Brant, em 12 de junho) nos levou a grandes reflexões, a grandes homenagens, a grandes compilações da obra dele. Fernando era respeitadíssimo no exterior como um dos grandes defensores do direito autoral brasileiro. Um dos grandes luminares dessa articulação. Ele tinha um grande pensamento racional a respeito do trabalho dele à frente da UBC (União Brasileira de Compositores). Fernando era um cara exemplar. De todos os falecimentos de seres amados, inclusive pai e mãe, a que doeu mais o meu coração foi a do Fernando, porque eu nunca tinha pedido um irmão. Só pode ser pior perder um filho. Mas estou mais acostumado. O ser humano se adapta a tudo. Não sei se isso é a grande virtude ou a grande tragédia do ser humano, se adaptar a tudo.