Em dois momentos do filme “Leviatã” (cartaz de hoje, às 9h05, no Telecine Cult e no TelecinePlay), vemos nitidamente o rosto do governante russo Vladimir Putin num quadro na parede do prefeito de uma cidadezinha do norte do país.

Mais do que a obediência a um protocolo, o retrato é a única menção direta de uma história que exibe uma Rússia corrompida em todas as suas esferas de poder, da política à igreja. O prefeito seria uma versão dos abusos cometidos por Putin.

Um dos melhores filmes lançados em 2015, a produção de Andrey Zvyagintsev apresenta um político que faz o que quer na cidade, controlando e ameaçando aqueles que atravessam o seu caminho. É o caso de Kolya, que é obrigado a sair de sua propriedade.

Porto Seguro

Com o apoio do judiciário, onde Kolya tenta reverter a apropriação indevida de seu terreno, o prefeito tira paulatinamente toda a dignidade do pescador, que só tem a família como porto seguro.

Mas logo esse alicerce também desaba, mostrando um outro tipo de corrupção, vinculado à essência daquela cultura, em que pais dão mau exemplo, bebendo à frente dos filhos e saindo para dar “uns tiros” como uma diversão familiar.

São duas pontas da sociedade que estão intimamente ligadas, como aponta a cena final de “Leviatã”, em que a família do prefeito ouve um culto cujo tema é a importância da verdade. Ao final, no lugar de pessoas, vemos uma “procissão” de carros pretos.

Esqueletos

Embora outros filmes já tenham recorrido a um microcosmo familiar para destrinchar um país, Zvyagintsev se distingue na maneira como dispõe esses elementos. Inicialmente, parece uma história de um homem contra o poder.

Depois, com a chegada de um amigo advogado de Moscou, a história toma aparentemente outro caminho, em que, para vencer o inimigo, é preciso usar das mesmas armas. Mas essa ideia não vai para frente, quando uma nova informação faz a trama pegar um desvio.

Esse elemento cria uma implosão, uma ferida que não se fecha, como a imagem do esqueleto de uma baleia na praia. Para o diretor de “O Retorno” e “Elena”, a sociedade é hoje uma exposição à céu aberto de suas vísceras. Um estado de impotência sentido pelo espectador.

Duro, sem filtros e amargo, “Leviatã” não foi bem recebido pelo governo russo nem pela Igreja Ortodoxa, ambos reclamando que o filme teria ido longe demais em suas críticas, falando mal do país apenas para conseguir visibilidade no exterior.