Após censura, historiador conta como entrou no embate pela liberdade de expressão

Elemara Duarte - Hoje em Dia
05/08/2014 às 07:59.
Atualizado em 18/11/2021 às 03:39
 (Divulgação)

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Há seis anos, uma profecia da professora e historiadora da UFMG Heloísa Starling, feita durante uma palestra, ficou marcada na mente do também historiador, professor e escritor Paulo Cesar de Araújo – “o biógrafo de Roberto Carlos” – que lança nesta terça-feira (5) na cidade (na FNAC do BH Shopping), às 20h, o livro “O Réu e o Rei: Minha História com Roberto Carlos, em Detalhes” – a primeira concretização dessa profecia.   “Daqui a cem anos, quando nenhum de nós aqui mais existir, existirão as canções de Roberto Carlos e o livro ‘Roberto Carlos em Detalhes’ para explicar às gerações futuras a grande importância deste artista na história da música brasileira”, afirmou a professora, sobre a biografia feita pelo escritor e censurada pelo artista dois anos antes.   Hoje, a fala de Heloísa está em local nobre e esperançosamente registrada no último parágrafo do texto do novo livro de Araújo. Os dois historiadores ainda não se falaram após a publicação. Mas a professora leu o texto e destaca três aspectos que tornam o livro editado pela Companhia das Letras (522 páginas, R$ 45) como algo “único”.    “É um documento importante sobre os direitos à liberdade de expressão no Brasil. Conta a história construída por dois personagens: Roberto Carlos e o autor da biografia dele. É a história de uma época”, enumera Heloísa, que coordena o  “Projeto República”, na UFMG. Tanto tempo depois, admite, honrada, quase teve “uma coisa” na hora que leu o próprio relato.   Sete anos após passar mais de cinco horas numa tensa audiência de conciliação com o maior ídolo da música popular brasileira, Araújo virou um personagem da história que contava. Agora, precisa ser ouvido. Quem é Paulo Cesar de Araújo, o que passou ao ver 16 anos de trabalho para um potencial best-seller sendo censurado e recolhido das livrarias?     Não é bem assim   “O livro ‘Roberto Carlos em Detalhes’ não foi censurado ou apreendido, mas saiu do mercado em face de um acordo judicial, irrevogável e definitivo, assinado espontaneamente pelo autor do livro, o editor e a editora”, salientou, em nota, há algumas semanas, o advogado do “Rei”, Marco Antonio Campos.   Em “O Réu e o Rei”, Araújo conta desde seu primeiro contato com a música do ídolo, ainda na infância, na Bahia, a “censura” do livro, quem foi contra ou a favor, quem ficou sobre o muro, até os desdobramentos para a normatização da chamada “Lei das Biografias”. A proposta está no Senado, onde, neste mês, deve ser realizada uma audiência pública para debatê-la.   Tudo isso graças aos espinhos que o escritor recebeu do seu “objeto de estudo”. Nada, realmente, é por acaso.  “Quando Roberto Carlos lança as rosas aos fãs, ele toma o cuidado de mandar a produção tirar todos os espinhos. Acho que dessa vez todos os espinhos ficaram para mim”, ironiza o escritor, ao Almanaque.     Para que o ‘rei’ não seja mais o censor   Hoje em Dia – Está se sentindo mais livre depois de escrever este livro? Paulo Cesar de Araújo – Sem dúvida. Não só pelo tema. Pelo próprio fardo de escrever um livro, o que não é fácil. Levei cinco anos para escrevê-lo.   Mesmo com a pegada jornalística, o livro tem um gosto de desabafo. E é um desabafo esperado. Era necessário…   Você é testemunha e participante de um momento histórico importante. Como fez para dosar o tom dessa história? Foi naturalmente. Tive que achar as palavras certas e, sinceramente, colocar o meu sentimento. Muitas pessoas perguntam se eu parei de ouvir Roberto Carlos. Respondo que não. Roberto é meu objeto de estudo. Sou historiador.    Lamento o que aconteceu. Novamente, fui afetuoso com a obra do Roberto, com tudo o que ela significou para mim, para minha geração e para o povo brasileiro. É um olhar de dentro. Mostra a recepção da obra de um artista por um segmento popular do qual sou originário. É um trabalho de historiador. Mas tem o meu testemunho.     Você passou a ser um personagem na própria biografia de Roberto Carlos... ...E sem querer.   Mesmo com o Roberto Carlos não atendendo aos pedidos seus e da editora para falar antes da impressão da biografia, você imaginou que as consequências da publicação pudessem ser tão dramáticas? Claro que não. Isso tudo fugiu ao nosso controle. Inclusive, fugiu ao controle dele (Roberto). Ele próprio deve ter se surpreendido. O histórico de censuras dele não teve consequências. Ele censurou o livro do mordomo e não foi polêmica (“O Rei e Eu”, publicado em 1979, pelo ex-secretário do músico Nichollas Mariano. Por meio da Justiça, Roberto Carlos confiscou os 70 mil exemplares do livro). Depois, ele censurou Ruy Castro e ficou restrito.   Naquelas épocas, talvez ainda tivéssemos um país mais passivo diante de um ato de censura, independentemente de onde ele viesse. Claro... O meu encontro com ele diante do juiz foi em 27 de abril de 2007. Até então, ele vinha censurando como se estivesse em piloto automático. Quando eu saí da sala, não estava claro que a situação teria a repercussão que teve.    Mas isso por causa daquele momento da história do Brasil. A sociedade estava mais vigilante, não só contra a censura, mas também contra o racismo, a homofobia.   O desdobramento é muito grandioso. A biografia de um ídolo brasileiro, a censura e o fato começam a nortear discussões que fogem ao âmbito da música. Quando eu poderia imaginar que haveria um projeto no Congresso Nacional motivado pela censura ao meu livro? E depois vem Chico Buarque e Caetano Veloso, se juntam a Roberto Carlos, movem a classe artística (“Procure Saber”, grupo formado no ano passado e que defende a necessidade de autorização prévia para publicação de biografias).   Depois de todos os desdobramentos negativos e positivos do caso, valeu a pena? Felizmente, teve a luz, o sol. O momento mais dramático para mim foi na viagem de volta do Rio para São Paulo (após a audiência em 2007). Eu entrei no ônibus, apagou a luz, aquele silêncio. Foi o fundo do poço. Meu livro foi proibido, Roberto Carlos tripudiou, conseguiu tudo e acabou. Estava no silêncio da madrugada. Acabou seu livro. Vá fazer outra coisa na vida.   …E seu livro “pelo espelho, na distância se perder”. ...A imagem é boa. Foi esta sensação de solidão, de abandono. Isso que o Roberto escreve nas letras. Você citou bem os versos de “As Curvas da Estrada de Santos”. Ele entra no carro, não tem perspectiva, tudo acabado.   Enfim, nada como um dia após o outro. E no dia 2 de maio, vem o artigo do Paulo Coelho (escritor se manifesta contra a proibição da biografia na imprensa). Foi quando eu vi o sol surgindo.   E o “sol” veio justamente de quem é sempre tão atacado.  Eu me senti acolhido. Li alguns livros dele, pois conto um pouco da história dele em “Eu Não Sou Cachorro, Não” (2002, Editora Record).   Está provado, ele é realmente um “bruxo”, o mago que te salvou. (Risos) É isso mesmo! É uma pessoa surpreendente. A entrada de Paulo Coelho foi outra surpresa. Não estava no script. Aliás, pessoas foram entrando nessa história, como se existisse uma força estranha trazendo-as para uma teia. Estamos há um passo de virar esta legislação. O projeto de lei (PL) do deputado Newton Lima (PT/SP) foi aprovado na Câmara e está no Senado (O PL 393/2011 altera o artigo 20, da Lei 10.406/2002, para garantir a divulgação de dados biográficos de pessoas cujas histórias sejam de interesse da coletividade). E no Superior Tribunal Federal, aguardamos o voto da ministra Cármen Lúcia.    Quando você decidiu contar os desdobramentos desta história? Este livro nasceu na estrada. Quando eu fazia as palestras contando como foram os bastidores, sempre surgia a pergunta da plateia se eu iria escrever sobre isso. Quando procurei o Luiz Schwarcz (editor da Companhia das Letras), era para fazer um livro sobre MPB, com entrevistas que tenho desde 1990, e que parte usei na biografia. Mas ele me incentivou (a escrever “O Réu e o Rei”). Assinei o contrato em janeiro de 2009, ficou definido que eu contaria os bastidores da pesquisa. Mas comecei a escrever a partir da audiência de conciliação. Foram cinco anos. Por causa da polêmica do “Procure Saber”, algumas pessoas acharam que eu escrevi em cinco meses. O livro foi resultado de maturação de pensamento. Estava quase pronto no final do ano passado. Então, veio o “Procure Saber” e decidi incluir.   Você atualiza a pesquisa de “Roberto Carlos em Detalhes”? Não estou trabalhando diretamente naquele livro, pois estava fazendo este. É um livro que tem uma organização temática. Sei exatamente onde vai entrar cada novo fato. Por exemplo, a repercussão da música “Esse Cara Sou Eu”.   O que vem daqui adiante? Eu fechei uma trilogia ultra-popular brasileira com os livros: “Eu Não Sou Cachorro, Não”, “Roberto Carlos em Detalhes” e “O Réu e o Rei”. Analisei a relação afetiva e a repercussão da obra de artistas que sempre foram desprezados pelas elites culturais, mas que tiveram grande aceitação popular no Brasil. Estamos falando de Roberto Carlos a Waldick Soriano, Nelson Ned, e daí por diante. Em “O Réu e o Rei” retomo um pouco aquele primeiro livro, mas de uma perspectiva pessoal, mostro minha relação afetiva com a obra do Roberto e a percepção da crítica. Consegui amarrar essa história. No próximo livro, vou para a MPB clássica. Tenho entrevistas inéditas com Tom Jobim, Chico, Tim Maia, Caetano. Abordava com eles sobre Roberto, mas também, pensava em algo maior.   Os advogados do Roberto Carlos lhe procuraram pelo novo livro? Emitiram uma nota dizendo que não tomariam providência. Se a lei mudar, “Roberto Carlos em Detalhes” ficará mais fácil para ser republicado. Afinal, o acordo que foi feito para tirá-la de circulação foi em outro contexto e que não se sustenta mais. Se não for assim, meu livro será o último livro proibido no Brasil e o Roberto Carlos, o último censor.

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