OLINDA - A mesa mais concorrida da Fliporto transformou-se numa troca de amabilidades e impressões sobre a força da literatura entre o angolano José Eduardo Agualusa e o moçambicano Mia Couto.  A tenda do congresso literário da Feira Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto) ficou lotada.
Mia Couto lançou em Olinda “A Confissão da Leoa”, romance escrito após ele ter presenciado dois de uma série de ataques de leões em 2008 em Palma, Moçambique.

Agualusa assegurou não se sentir estrangeiro no Brasil, dizendo que a literatura criou um país único de língua portuguesa. Mas o escritor, que tem dez livros lançados, todos comercializados no Brasil, aproveitou para uma crítica aos brasileiros que, na sua visão, precisam parar “de olhar só para cima, e olhar também para os lados”, onde estão os países africanos.

A única discordância dentre os dois autores foi a postura diante do esquecimento. Pelo sofrimento do povo africano, Mia Couto prega o esquecer como saída. “A literatura faz voltar ao passado sem apontar culpados, e no caso de Moçambique, o esquecimento (das guerras civis, escravidão e fome) é recomendado”. Agualusa, por sua vez, defendeu o diálogo como solução, sem abrir mão da memória.

O debate, mediado por Zuleide Duarte, professora de literatura lusófona da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), abriu a programação da Fliporto de sábado  e foi recheado de histórias engraçadas. Muitas delas trataram da confusão feita pelos leitores entre os dois escritores. Cada um deles já autografou livro do outro por engano do leitor, e chegou inclusive a subir em palco de festival literário sendo apresentado com o nome do colega.

Para Agualusa, um fã chegou a pagar um jantar achando se tratar de Mia Couto. Os dois são fisicamente bem diferentes, mas por serem os escritores africanos mais conhecidos fora de seus países, se divertem com a confusão.


*A jornalista viajou a convite da Fliporto