Embora estigmatizado no mercado editorial, o formato “Querido diário” sempre despertou grande curiosidade nos leitores, reflexo de nosso inconfessável lado bisbilhoteiro em torno da vida alheia. Quando se trata de pessoas conhecidas, então, o interesse por detalhes íntimos dobra de tamanho. Mas quem for atrás de confidências e fatos pitorescos em “Diário de um Combatente”, escrito por Che Guevara no momento mais agudo da revolução cubana, entre 1956 e 1959, está fadado à frustração.


Pela primeira vez liberado para publicação, o diário recém-lançado pela editora Planeta é o oposto do que se espera como manifestação sincera de sentimentos no calor dos fatos, como um substituto do divã psicanalítico. O livro reúne apontamentos muito concisos sobre o avanço dos guerrilheiros após a chegada do iate Granma na costa oriental da ilha. De grande valor histórico, o livro é indicado a iniciados e estudiosos do triunfo de Guevara, Fidel Castro e companhia.


Guevara possivelmente tinha a noção das limitações de seu diário, escrito como notas curtas nos intervalos da luta armada, e por isso lançou posteriormente “Passagens da Guerra Revolucionária”, livro de cabeceira de muitos esquerdistas que retrata justamente o período da revolução. Nesse, ele teve a possibilidade de ampliar a descrição e dar acabamento literário ao texto, preocupação inexistente em “Diário de um Combatente”.


Com medo de que seus 12 cadernos caíssem em mãos inimigas, Guevara é enigmático em várias passagens. Também não se pode esperar, pelas circunstâncias em que escrevia, informações precisas. Não são poucas as vezes em que o editor intervém, corrigindo nomes, locais e fatos. Para os fãs de relatos de guerra, Guevara se mostra pouco disposto a dar detalhes de suas principais contendas.


Quando registra a presença de um delator na tropa, o momento de sua morte a mando de Fidel é resumido em poucas palavras: “Ao chegar ao acampamento se justiçou o dedo-duro; aos dez minutos (...) o declarei morto”. Mais adiante, o primeiro combate, o ataque a um quartel, não tem a dramaticidade esperada para uma luta de quase três horas. Aos muitos nomes citados, sem maiores descrições da pessoa, há um glossário no final sobre o papel de cada um na deposição do ditador Fulgencio Batista.


Por vezes, surge um herói sem glamour e fisicamente debilitado, que reclama de sua asma. O que de forma alguma desmerece a importância histórica da publicação (a transcrição foi feita pela viúva de Guevara, Aleida March), apesar de permanecer a dúvida sobre os motivos do desaparecimento de alguns cadernos.