Antes fora de catálogo, os dois únicos livros que a escritora mineira Maura Lopes Cançado (1929-1993) lançou na carreira: “Hospício é Deus” (1965) e “O Sofredor do Ver” (1968), agora, são relançados em uma caixa da Autêntica Editora. Os exemplares eram tão raros que chegavam a custar R$ 590 a unidade, em sebos on-line. Mas por que estes livros são tão importantes?

Porque são leituras nada pacíficas, provavelmente é uma das justificativas. Os livros foram baseados em diários da escritora, que foi uma mulher, filha de uma família rica do interior de Minas, em viagem ao próprio íntimo entre entradas e saídas de hospitais psiquiátricos.

Um hospício no caminho

Apesar das residências pouco aprazíveis, Maura conseguiu expor inspiração em seu primeiro livro. “Hospício é Deus” é fruto de uma de suas passagens pelo Hospital Gustavo Riedel, no Rio de Janeiro, entre 1959 e 1960.

“Então terei de trabalhar como um homem? (Trabalhar? Se não penso sequer em sair daqui. Não me importaria entrar para um convento, onde pudesse escrever, se tivesse cama e comida. Até rezaria, se disto dependesse minha sobrevivência.)”, registrou Maura, neste volume.

“Ela o pontua como ‘Diário I’. Mas cadê o ‘II’? Não se tem notícia deste segundo e a família não confirma, afinal, ele nunca apareceu. Mas, no mínimo, ela pensou em fazer um segundo”, acredita a editora literária do grupo Autêntica, Maria Amélia Mello.

Na coletânea de contos “O Sofredor do Ver”, o tema continua presente. Mas se antes ela confessava as próprias histórias, agora, ela fala em terceira pessoa. “Foi uma mulher a frente do seu tempo, porém doente, mas com muito talento”, analisa Maria Amélia.

Reverenciada no meio acadêmico

Interditada pela Justiça em 1974, depois de cometer um crime em uma clínica psiquiátrica e mesmo esquecida pelos leitores, Maura ainda se manteve reverenciada por um nicho, como é o caso das academias. “Existem várias teses sobre ela. Mas ficaram no âmbito da universidade”, lembra a editora Maria Amélia Mello.

Maura Lopes teve um filho, o jornalista Cesarion Praxedes, que morreu em meados dos anos 2000. Hoje, os direitos dos livros são do neto, que também vive no Rio.

A bela mineira de São Gonçalo do Abaeté morreu em uma casa de saúde sob a sombra do esquecimento, inclusive em relação a uma das mais caras habilidades pessoais que conseguiu preservar, a literatura.

“O que hoje se discute sobre loucura, sobre auto-ficção... Vindo dela, é um debate de primeira linha”, acrescenta Maria Amélia.