Houve um tempo em que ser criança com bochecha rosada e “dobrinhas” por todo o corpo era sinônimo de saúde. Que o diga Dona Calabresa, personagem do livro “A Cantina de Dona Calabresa” (Cortez Editora), que adorava encher a criançada com comida.

Toda vez que um menino magricela entrava na cantina dela, dona Calabresa cutucava as costelas da criança e dizia, com voz doce: “Oh, como você está magrinho! Seus pais não sabem que você está em fase de crescimento? Ora, que pais você tem! Não vai me dizer que está de dieta? Venha, filho, vamos comer uma torta cheia de creme,
umas bolachas recheadas, umas salsichas embutidas...Custa só uma moedinha....”, dizia a interesseira.

A bem-humorada história adquire um tom mais divertido com as ilustrações supercoloridas e que enaltecem rechonchudas barrigas, brilhantes bochechas e bocarras que deixam aparecer a glote, trabalho da artista paranaense Márcia Széliga. A autora do livro é a professora de literatura com especialidade em língua inglesa Liana Leão, carioca que hoje
mora em Curitiba e que trocou o mate e o biscoito de polvilho, delícias da infância, pelo pinhão e pela bala de banana.

Tentações

Dá até água na boca folhear a publicação, uma vez que as páginas são decoradas com desenhos de apetitosos hambúrgueres, pizzas e batatas fritas, pirulitos, pipocas, bolinhos, balas e tortas. Todos esses calóricos e “engordativos” produtos – sim, a maioria industrializados e ricos em corantes artificiais – eram fartamente consumidos por alunos e professores na Cantina de Dona Calabresa. “Escrevi sobre comida porque vejo que muitas cantinas em escolas oferecem lanches, como refrigerantes, comidas gordurosas, salgadas ou doces demais e que fazem mal às crianças”, afirma a autora.

Parece brincadeira, mas a abordagem de Liana serve de alerta para toda a família, uma vez que a obesidade e o sobrepeso são responsáveis pelo surgimento de doenças como o diabetes.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o sobrepeso atinge cerca de 20% da população entre 10 e 19 anos e nada menos que 48% das mulheres e 50,1% dos homens acima de 20 anos. Mais de 600 milhões de pessoas, ou 13% da população adulta do planeta, são obesas. A taxa mais que dobrou entre 1980 e 2014, de
acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Mas nada de pânico e de cortar em definitivo as guloseimas. “É claro que eu também gosto de comer bobagens, especialmente chocolates e chicletes, mas não deixo nunca de comer frutas e legumes”, diz a autora. Para crescer saudável, segundo Liana, um prato colorido, preferencialmente com alimentos verdes e amarelos,
como legumes e hortaliças, é o ideal.