A jornalista, crítica de teatro e escritora Luciana Romagnolli lança nesta quinta-feira (17) o livro "O Mistério de Haver Olhos", estreia da autora na poesia. Curitibana radicada em Belo Horizonte, ela investiga a potencialidades de a linguagem expressar o luto e estranhar o familiar, num jogo em que identidades se desfazem e se reconstroem. O lançamento acontecerá às 19h, no canal do YouTube da Quintal Edições.

Durante a live, haverá exibição de um videopoema dirigido pela cineasta mineira Clarissa Campolina e protagonizado por Grace Passô, além de uma leitura de poemas feita pela atriz baiana Laís Machado.

"O Mistério de Haver Olhos” abarca temas como a morte do pai, o luto, a posição da mulher na sociedade, a maternidade e a investigação dessas experiências pela linguagem, transitando entre a dimensão pública e a íntima. “São ciclos de vida, de nascimento e morte. Há uma tentativa de ir além do tempo cronológico, que às vezes volta ao cotidiano de ‘uma qualquer terça-feira’, como diz um dos versos ”, sintetiza Luciana.

O livro pode ser entendido como um reencontro - quase um acerto de contas - de Luciana com a poesia. Foram poemas,  principalmente os de Cecília Meireles e Fernando Pessoa, que estiveram entre suas leituras de cabeceira durante a adolescência, a impulsionaram à escrita e formaram sua sensibilidade estética numa cidade do interior paranaense (Umuarama), onde havia pouca oferta de atividades artísticas.

No entanto, diante da perda do pai, assassinado em 2003, foi como se uma “[...] primeira/ muralha das/ muitas maiores/ que as chinesas” tivesse se erguido entre ela e a poesia. Encontrados na seção “Essa coleção de objetos de não amor” (título que homenageia o poema “Quero”, de Carlos Drummond de Andrade), os versos acima, mais do que representar aquela angústia, também apontam para a própria jornada de desvelamento e refazimento que atravessa o livro.

“São versos de uma vida inteira. Ciclos de vida, de nascimento e morte”, diz Luciana. “O Mistério de Haver Olhos” se desdobra em seis diferentes seções, nomeadas com versos de Drummond, Pessoa e Cecília, além de Adélia Prado. "São frases que ficaram presentes na minha cabeça, me acompanhando, como se fossem passarinhos, ali, cutucando. De alguma forma, elas revelam o que estava pulsando no momento da escrita e ressoa em cada conjunto de poemas”, conta.

No conjunto dos textos, Luciana identifica uma espécie de travessia “de um início mais mortificado para uma possibilidade de reaver a vida”. Uma passagem pelo luto, especialmente a morte do pai, o que implicou no afastamento da poesia até sua reconexão com esta após o nascimento do filho. Outras questões como a posição da mulher na sociedade e a reflexão sobre a maternidade também estão projetadas no livro de forma que os temas se deslocam entre o público e o íntimo. Ao tratar desses aspectos, a escritora não buscou satisfazer discursos contemporâneos, e sim indagar de que modos o feminino ainda pode ser abordado, sem ficar restrito às identificações disponíveis.