“Dama de Paus” não é o primeiro romance da escritora e economista Eliane Cardoso, mas tem uma trajetória bem diferente dos anteriores. Primeiro, porque não seguiu um caminho tradicional de publicação, via editoras já estabelecidas: foi lançado de forma autônoma pela escritora, na Amazon. 
Além disso, traz no enredo uma história carregada por Eliana há muito tempo. “Quando eu era jovem, houve uma série de crimes ‘de honra’ em Belo Horizonte e os assassinos foram absolvidos. Hoje, isso é inadmissível, mas na época acontecia muito e eu carregava essas histórias e toda a revolta da minha geração”, diz. 

Assim, para se libertar da angústia frente àqueles homicídios e ao desdobramento que eles tiveram perante a Justiça, surgiu a obra de Eliana. O livro tem como um dos temas centrais um suposto feminicídio na década de 1970, tratado como crime de honra. A autora também coloca em cena outras vivências em Minas, vindas do tempo de menina.

Ambientada em uma cidade fictícia, a obra acompanha a saga de Damiana, uma mulher que volta do velório da neta e intercala a própria história e a das filhas por meio da leitura de um testamento e de uma conversa alheia escutada por uma porta entreaberta. A escolha por temáticas que permeiam o universo feminino e, também, o próprio protagonismo dado às mulheres é visto com naturalidade pela autora.

“Fui criada por uma mãe muito forte. Éramos cinco irmãs, muitas tias. Estou acostumada a viver em um mundo onde as mulheres têm voz e vozes muito diferentes. De uma forma que, para mim, imaginar um mundo ficcional onde as personagens são mulheres e com personalidades diferentes é algo natural”.

Autopublicação 

A autora conta que a crise editorial vivida pelo país foi um dos fatores que motivaram a publicação independente de “Dama de Paus” por uma plataforma autônoma da Amazon, o KDP (Kindle Direct Publishing). “Publicar livros pelos meios tradicionais estava se tornando cada vez mais difícil”, justifica.

A possibilidade de participar do prêmio literário organizado pela Amazon foi outro fator que contribuiu para a opção pela publicação independente.
“A possibilidade (de concorrer) do prêmio foi tentadora. Tanto que o livro já estava pronto antes da data para a participação, mas optei por esperar um pouco mais”, diz. 

Embora tenha se proposto a participar, a autora conta que foi uma surpresa vencer o prêmio.

“Eram 1.500 obras, pensei que deveria ter muita coisa boa e inovadora. Acabei achando que a possibilidade de ganhar era quase como a de levar a loteria. Na véspera, quando jantei com os finalistas, achei que o prêmio não seria meu”, conta Eliana.