Não basta que os filmes sejam vistos. Deve-se, antes de tudo, saber vê-los, para que se tenha uma compreensão mais ampla dos vários significados que um simples plano pode conter. Esse é o ponto de partida do livro “Ver e Ver Como – Ensaios Sobre Cinema e Cineastas Marcantes”, recém-lançado pela Paco Editorial e assinado pelo professor e crítico de cinema Humberto Pereira da Silva.

“Entendo que um filme possa ser visto exclusivamente por deleite estético, pela emoção que causa ou, no caso de um filme comercial, para mero entretenimento. Mas, fundamentalmente para mim, a importância de um filme e do cinema em geral está naquilo que sugere, que instiga a reflexão e serve de baliza para pensarmos sobre a vida, o mundo, a sociedade e a política”, registra o autor.

No livro, Silva reúne textos de fôlego extraídos de publicações diversas em que se percebe, além da elegância da escrita e o olhar arguto, uma espécie de “auto-exigência”: sempre indagando sobre o sentido da obra. “Dificilmente me aproximo de um filme tendo-o como objeto isolado, fechado em si mesmo. Todo filme é resultado de escolhas e as escolhas determinam seu sentido”.

“Enquanto existir no mundo um cineasta como Ceylan, por exemplo, a crítica, como a entendo, é o farol que iluminará seus filmes para o espectador”
Humberto Silva
Crítico de cinema e escritor

Ele se vê seduzido sempre a indagar a respeito das intenções explícitas ou implícitas do diretor, buscando decifrar a visão de mundo dele. “Um filme é tão mais cheio de sentido quanto mais tenho em mente a trajetória do realizador, e não a apreciação isolada de uma obra”, salienta Silva, que explica, muitas vezes, a opção de, nos primeiros parágrafos, fazer observação geral do trabalho do cineasta.

Assim, ao comentar a versão de “Othello” feita por Orson Welles em 1951, o crítico pontua primeiramente o diálogo do enfant terrible com a literatura. No texto sobre “O Império dos Sentidos” (1976), de Nagisa Oshima, ele insere a polêmica obra dentro de uma produção japonesa que choca o espectador na maneira peculiar como aborda temáticas de violência ou conteúdo sexual.

“É preciso ter em vista que a crítica de cinema é voltada para o leitor. Sem ele, não faz sentido escrever. Sendo assim, procurar oferecer o maior número de informações possível, para que tenha elementos para acompanhar a linha argumentativa desenvolvida. Sob esse aspecto, sou refratário à escrita acadêmica que intimida o leitor, tanto quanto ao texto que recorre o tempo todo a lugares comuns, a frases soltas e vazias”, registra.

Silva deve esta percepção ao jornalista mineiro Alcino Leite Neto, com quem trabalhou no site “Trópico – ideias de norte a sul” e aprendeu alguns macetes de escrita jornalística. Ele é devedor também do estilo do filósofo Michel de Montaigne. “O que importa é que o leitor se veja diante de um ponto de vista, e que a partir dele possa refletir sobre a vida e o mundo depois de ver um filme”.

Política

É nítido o interesse do autor pelo cinema político, dedicando um capítulo a longas como “O Estado de Sítio”, de Constantin Costa-Gavras, e “Terra e Liberdade”, de Ken Loach. Para ele, o gênero é primordial para se buscar um diálogo com o presente e cita “A Classe Operária Vai ao Paraíso”, lançado em 1971, ainda que “as questões colocadas (sobre a união dos trabalhadores) se mostrem insuficientes para entendermos nosso momento”.

Filmes de diretores socialistas, por exemplo, transformaram-se em raridade devido à guinada à direita. “Cada momento da história gera as condições e os problemas que um filme possa retratar. A importância está em revelar o ‘espírito de época’. Mas hoje questões similares a ‘Classe Operária’ são tratadas em produções como ‘Roma’ (líder das listas de melhores do ano) e o brasileiro ‘Que Horas Ela Volta?’”, compara.

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