Mais de cinco décadas após o lançamento de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, não há outro cineasta capaz de canalizar a mesma potência artística e intelectual do baiano Glauber Rocha. Ele é um dos diretores mais estudados do cinema nacional e, nas livrarias, mais uma publicação busca esquadrinhar as pulsões do realizador falecido em 1981.

Autor de “Glauber Rocha: Cinema, Estética e Revolução”, recém-lançado pela Paco Editorial, o filósofo, professor e crítico de cinema Humberto Pereira da Silva empreende no livro uma abordagem didática, seguindo a trajetória do diretor a fim de que possa ter um quadro cronológico de seu processo criativo e do ambiente em que se formou. 


“Penso que em nossa formação cultural a obra de Glauber deveria fazer parte do currículo escolar como Machado de Assis na literatura ou Candido Portinari na pintura. Quando desponta a discussão acerca do uso do cinema em sala de aula, entendo que não se pode prescindir de Glauber nem do Cinema Novo”, registra Humberto.

Glauber é o cineasta que mais interesse desperta, com várias publicações esquadrinhando o seu trabalho e a sua biografia. Como você justifica esse interesse?

Não tenho lembrança de livro recente sobre Glauber além de “Primavera do Dragão”, do Nelson Motta, de 2011. Aliás, com repercussão negativa porque o Motta foi pouco cuidadoso ao mencionar pessoas do circulo intimo da juventude de Glauber. Certo, mas Glauber, de fato, é o cineasta brasileiro mais estudado e também aquele cuja vida desperta curiosidade. Se consideramos Glauber exclusivamente como cineasta, em âmbito internacional na década de 1960 ele é o realizador mais importante e emblemático do então cinema do Terceiro Mundo. Ele foi o mais notório porta-voz de uma maneira de fazer cinema que não existia no mapa da filmografia mundial. Se formos além do cineasta, Glauber era uma personalidade vulcânica, inflamada, desmedida, dionisíaca, para ficar num clichê nietzschiano. Isso num momento de contrastes, tensões e acirrados embates ideológicos. O que se tem então é um grande criador artístico e um homem de embate, de militância cultural e política. Genialidade artística e ativismo cultural fazem de Glauber um personagem quase único em nosso país. Por isso, por gerar uma obra tão desafiadora quanto original – e assim colocar sua obra e visão de cinema no centro das discussões mais amplas de seu tempo – Glauber ao mesmo tempo serve de baliza para a criação artística em condições especificas e para mim serve de estimulo e referência para as novas gerações.

Podemos dizer que as ideias dele, que estavam à frente do seu tempo, hoje podem ser melhor compreendidas, levando em conta tudo o que se passou com a política, a economia e a geografia do planeta?

Ao considerarmos exclusivamente seus filmes, esta pergunta me traz à mente principalmente Terra em Transe. Trata-se de um filme alegórico. Na escolha pela alegoria, inevitável que o filme gera incompreensões, que reflitam ideias confusas, cujo teor não seja imediatamente percebido. Mas justamente com a alegoria Terra em Transe jamais será visto como um filme datado, um filme congelado ao momento em que foi feito. Quer dizer, há um curioso jogo temporal numa obra como Terra em Transe. Ela foi mal compreendida em seu tempo, mas isso se torna perturbador quando vemos hoje a realidade política do país. O filme não se tornou mais inteligível, mas sua verdade alegórica é incomodamente impactante. Não há como ver hoje Terra em Transe e não sentir que as representações daquele filme dos anos de 1960 são identificadas a estruturas de poder atuais. No filme, a Explint, que controla os meios de comunicação nos subterrâneos das esferas de poder, é uma prefiguração perturbadora do que hoje é a Rede Globo.

Gostaria que você falasse de seu interesse, em particular, por Glauber. Quais são os pontos sensíveis da obra que hoje ainda lhe seduzem? Esse estudo (a bibliografia é extensa) vem de quando?

Vai aqui inicialmente uma resposta afetiva e, em seguida, elaborada em razão de interesses intelectuais. No plano afetivo a primeira imagem que tenho de Glauber vem de suas aparições no Programa Abertura da extinta TV Tupi no final da década de 1970. Era então adolescente e me causou impressão desconcertante a exuberância da fala de Glauber. Daí, numa época em que não havia sequer vídeo cassete, não sendo, portanto, fácil ver seus filmes, procurava acompanhar qualquer meio em que eles fossem exibidos. Assim, no início da década de 1980, vi em condições bem precárias Deus e o Diabo e Terra em Transe. O passo seguinte, ainda na adolescência, foi ler as obras de Raquel Gerber, Ismail Xavier e Jean-Claude Bernardet. A leitura desses importantes estudiosos me fez ver a dimensão da obra de Glauber para além do cinema. Com seus filmes ele efetivamente interviu no debate cultural de seu tempo. Sob esse aspecto, o que é bastante sensível para mim é sua capacidade de colocar as grandes questões do país no centro do debate. É um tipo de cinema que jamais será visto pelo prisma exclusivamente fílmico. No fundo, o cinema glauberiano está voltado para a intervenção histórica e o comprometimento social, e nisso, na presunção que toma a arte como meio de intervenção, o que me seduz em sua obra.

Você aposta numa abordagem cronológica e didática, explicando cada fase e proposta do realizador. Nesse sentido, o seu objetivo é retirar um pouco essa aura de diretor hermético e mostrar que suas ideias podem facilmente serem digeridas e discutidas num ambiente como a sala de aula?

Sim, esse é, aliás, um ponto que não se pode perder de vista quando se discute hoje a inclusão da exibição de filmes nas escolas. Digamos que o propósito mais latente do livro é o de se oferecer para uma introdução a Glauber no ensino médio. Quando desponta a discussão acerca do uso do cinema em sala de aula, entendo que não se pode prescindir de Glauber nem do Cinema Novo. Penso que em nossa formação cultural a obra de Glauber deveria fazer parte do currículo escolar como Machado de Assis na literatura ou Candido Portinari na pintura. Com isso a tentativa de escrever um livro com abordagem didática, seguindo a trajetória de Glauber a fim de que se pudesse ter um quadro cronológico de seu processo criativo e do ambiente em que ele se formou.

Você sente falta, no cinema de hoje, de uma pessoa que pense o cinema de forma ampla como ele propôs, buscando outros diálogos com o público, ao mesmo tempo em que não fosse um solitário, angariando colegas que comungassem de projetos que, se não semelhantes, buscassem uma verdade que não é dita?

Resposta: Tive oportunidade de conversar com o Kleber Mendonça num debate sobre O Som ao Redor na ECA-USP três anos atrás. Na ocasião lhe pus rapidamente essa questão. O caso é que em Glauber há a conjunção entre uma personalidade marcante e um artista genial num contexto histórico preciso. Isso é muito raro. Qualquer tentativa de emula-lo soaria fake, algo um tanto postiço. Uma personalidade como a dele não se repete facilmente, ela surge espontaneamente. Sinto falta de alguém como ele, que azeitasse nosso momento político e cultural. Creio que quem mais chega perto, como realizador, é justamente o Kleber. Mas realmente não vejo o Kleber, na comparação com Glauber, como alguém com punch para articular o debate, agitar um projeto que ponha em cena cinema, política e sociedade como assuntos urgentes, candentes, de modo inflamado. Para mim Kleber e seu cinema são brilhantes, mas ele é um fenômeno isolado no que se refere à articulação com propósito de um projeto coletivo.

A representação no trabalho de Glauber é algo curioso. Os personagens parecem descolados da realidade do filme, não trabalhando necessariamente para aquela narrativa, mas agindo como reprodutores da fala de Glauber, como se o diálogo se desse entre a verborragia de Glauber e o silêncio do espectador. É um tipo de abordagem que possivelmente não tem equivalência no cinema mundial, você concorda?

Em seus anos de formação o jovem Glauber foi fortemente influenciado pelo dramaturgo Bertold Brecht. E como se sabe um dos pressupostos mais conhecidos do teatro brechtiano é o de “distanciamento”, ou o “efeito de desilusão”. Com esse pressuposto Brecht que acentuar que o espectador está diante de uma obra de arte, que a representação teatral é ilusão. Os filmes de Glauber procuram esse efeito. Seus personagens lembram o espectador que a realidade do filme é um artifício. Mas ao mesmo tempo ele exige que espectador seja confrontado com a realidade fílmica. A ilusão fílmica, num paradoxo, tocaria a consciência do espectador para que ele refletisse sobre a ilusão de sua própria condição. Em termos estritos, sua alienação em relação à realidade em que vive. Antes de Glauber, não tenho em mente outro grande cineasta com esse propósito. Depois dele, vejo em Werner Herzog dos primeiros filmes, mais destacadamente em “Os anões também começaram pequenos”, de 1970, resíduos desse propósito glauberiano.

Dessa forma, Glauber seria o líder que as suas histórias buscam, libertando o povo (o público) das forças opressoras. Ele mesmo, fã de Antônio Conselheiro, carregaria esse tom messiânico...

Glauber coloca na boca de seus personagens muito que seria seu próprio pensamento. Assim, como ele próprio, seus personagens são contraditórios, envoltos em situações tensas, que buscam uma saída sem que se veja com nitidez luz no fim do túnel. Nesse sentido, a ideia de um líder carrega ao mesmo tempo a necessidade de uma liderança forte para condução de processo histórico, mas essa ideia carrega também o sentido de que essa liderança apenas monologue, não consiga realmente interagir com o povo. O tom messiânico é opaco, não chega efetivamente ao povo. Nisso, creio, um tanto da formação religiosa de Glauber. Principalmente o reflexo de suas leituras do Velho Testamento. Uma imagem forte a esse respeito é a de Moises, que clama no deserto. Entendo que os resíduos de sua formação religiosa jamais devam ser subestimados, quando se considera o significado mais profundo de suas inquietações. Por outro lado, o messianismo glauberiano é fortemente impregnado pelo salvacionismo sebastianista. Simbolicamente Glauber se volta para o rei português D. Sebastião. O mito do sebastianismo perpassa sua obra. D. Sebastião, o jovem rei que morreu em batalha e de quem os portugueses esperam que reviva.

No livro, você deixa claro que os elogios aos militares teriam ligação com o fato de que não conseguia mais fazer o seus filmes no exílio e que desejava voltar ao Brasil. A forma como defendeu o heroísmo militar, para você, é coerente e racional?

O período do exílio para Glauber foi traumático. De modo que, penso, seja difícil ter respostas conclusivas para o que se passou com ele. Nesse período, sobretudo bem nebuloso, entendo que ele deu uma guinada em suas posições políticas e passou a elogiar os militares. A defesa dos militares precisa ser bem matizada. Na época entendo que não havia como encontrar racionalidade em suas posições e defende-lo. Passado o tempo, entendo que suas posições devam ser ponderadas, ainda que delas se discorde. Eu não comungo a mesma posição do Geneton Moraes, que em documentário recente, Cordilheiras do mar, defende que Glauber foi imolado pelas esquerdas. Eu entendo, sim, que ele voltou transtornado do exílio e perdeu o domínio de suas declarações. Mas daí não se segue, para mim, que ele tenha perdido completamente a clarividência e não tenha entendido os rumos da abertura política a partir dos próprios militares. Quer dizer, ele foi incoerente ao não medir o quanto sua defesa dos militares punha em xeque sua capacidade racional; mas ele foi corajoso ao se colocar no olho do furacão. Nesse sentido, visto hoje, seria incoerente supor que, com as informações que tinha, ele fizesse diferente do que fez; se o fizesse, não estaríamos falando de Glauber Rocha.

Quais são os seus próximos projetos?

Glauber não se ausentará de meu próximo trabalho a ser publicado. A editora Letramento, a partir de eleição de críticos da Abraccine, lançará nos próximos meses um livro com textos sobre os 100 melhores filmes feitos no Brasil. Coube a mim a honra de escrever sobre Deus e o Diabo na Terra do Sol. Além desse livro, preparo para publicação no ano que vem uma coletânea de artigos que escrevi nos últimos cinco anos. Nessa coletânea, o destaque é para a reunião de artigos publicados no site Cinequanon, editado pelo Cid Nader. Nesses artigos, dei especial relevância para cineastas muito importantes, mas pouco conhecidos entre nós, como o sueco Mauritz Stiller, na época do cinema silencioso, e o húngaro Béla Tarr, que se aposentou recentemente.