“São deliciosos, de fácil leitura e não muito grandes”. Em poucas palavras, a dona de casa Jussara Cordeiro Paulino define o sucesso de uma coleção literária que atravessa gerações: a Vaga-Lume, lançada pela editora Ática em 1972 e campeã de vendagem entre a garotada.

Um desses best-sellers é “O Escaravelho do Diabo”, que acaba de ganhar uma versão para cinema, com estreia em abril. Embora sem o mesmo apelo das décadas de 70 e 80, a série permanece na mente de muitos de seus leitores, iniciados na literatura a partir de suas páginas.

“Era um vício. Um livro puxava o outro”, registra Jussara, de 41 anos, que ainda se lembra da primeira história a merecer sua atenção, “O Caso da Borboleta Atíria”, que, segundo dela, continha todos os ingredientes para agradar as meninas, como príncipes e bichinhos.

CAÇA À RUIVA

Mas vem de “O Escaravelho do Diabo” a lembrança mais engraçada, quando uma menina ruiva do colégio imaginou ser a próxima vítima do assassino do livro. “Ela recebeu um besouro espetado num alfinete, igual à história, e começou a chorar, achando que ia morrer”, lembra Jussara.

Além de fã da série, a professora de português Paula de Cássia Reis resolveu que era hora de voltar a adotar os livros da coleção. “Busco oferecer aos alunos gêneros diferentes e muitos dos livros têm isso, como aventura e suspense”.
Quando anunciou a novidade na reunião dos pais, a aprovação foi unânime. “Muitos disseram que os livros lembravam a infância e que relê-los seria uma forma de voltar no tempo. Acabou sendo uma forma de aproximar pais e filhos”.

Melanie Dimantas é a autora da adaptação de “O Escaravelho do Diabo”. Ela já adianta que mudou muita coisa, para tornar a história mais coesa e divertida. A alteração que mais salta aos olhos é a do protagonista, que, no livro, é um jovem de 19 anos. “Optamos pelo irmão de 12 anos, até mesmo por causa de uma cena meio violenta do início. No livro, o mais velho encontrava o caçula com uma faca no peito. Invertemos isso no filme, o que nos deu maior liberdade para tornar tudo mais pueril e engraçado”, adianta.

Escritora mudou estilo após ouvir dica de alunos

Foram os primeiros leitores de “O Escaravelho do Diabo” que levaram a autora Lúcia Machado de Almeida a aposentar o pretérito mais que perfeito. “Ela gostava de usar expressões como ‘ele comera’ e ‘ele fora’ nos diálogos de personagens infantis. Nenhum menino falava assim”, recorda Jiro Takahashi, o criador da série “Vaga-Lume”.

Graças a “uma senhora que era sensível aos palpites da juventude da época” e à parceria com alunos e professores, renovada a cada lançamento, o editor da Ática percebeu que estava no caminho certo ao apostar numa coleção de linguagem contemporânea, sem o costumeiro desfecho moralizador dos clássicos.

Jiro Takahashi faz as devidas escusas a Machado de Assis e Raul Pompeia, leituras obrigatórias na escola, mas diz que eles “já estavam defasados, sem vínculo com a juventude daquele tempo”. Lembra que a sua geração, “bem ou mal, não questionava, até porque o antigo ginásio (hoje, de sexta a nona séries) era um pouco elitizado”.
 
Parque Temático

Foi justamente a quebra desse perfil excludente, quando tornou-se obrigatório permanecer na escola durante o primeiro grau, que a “Vaga-Lume” alçou voo. “Com a reforma, grande contingente passou a entrar, muitos sem o mesmo repertório cultural do público anterior. Assim, o programa de leitura não se adequava mais”, recorda.

Não eram só os temas que empurravam as vendas para mais de100 mil exemplares por título. A estratégia era aliar preço baixo (“nunca deveria custar mais do que a Veja”) e máximo de oito livros lançados por ano. “Os professores pressionavam, mas se lançássemos mais a tiragem não seria tão alta para compensar o custo”.

Outra ação marcante foi encartar um folheto de atividades. “Com o tempo, acabou sendo descaracterizado. Não era para ser uma avaliação, para saber se o aluno leu ou não. Eram brincadeiras, como se fosse um parque temático com os personagens que as crianças tinham acabado de conhecer”, lembra o “Walt Disney” da Ática.