Não é por acaso que Maria de Lourdes de Almeida virou a Dona Lilia das Couves. E que Sebastião Galdino seja mais conhecido por Tião dos Biscoitos. Ou que Onair Ambró-sio da Fonseca ganhe o carinhoso apelido de Seu Naná do Hortifruti. O trio virou sinônimo daquilo que comercializa no Mercado Distrital do Cruzeiro, em Belo Horizonte, parte essencial de uma história de quase cinco décadas do local.

Na última semana, os corredores, as entradas e a praça ganharam os nomes deles e de outros 13 personagens, entre proprietários de lojas e funcionários. “Eles são um dos fatores de sucesso do Mercado, trabalhando em proximidade com os clientes. Ninguém é chamado de fulano de tal. Chamamos todos os frequentadores pelos nomes”, destaca Wayne Stochiero, presidente da associação comercial do mercado.

Seu Naná já tem 75 anos e continua a trabalhar, segundo ele, 365 dias por ano no Mercado. Mora no mesmo bairro, no Cruzeiro, mas passa a maior parte de seu tempo na loja especializada em verduras e frutas, que emprega os três filhos. É uma paixão passada de pai para filhos. No caso de Dona Lilia, de mãe para filhos, dividindo as tarefas no sacolão com dois deles.

“Durante a pandemia, eles tomaram conta e eu fiquei em casa por dois meses. Mas não aguentei. Comecei a sentir muita coisa e voltei para o serviço. Aqui a gente se distrai, conversa com os fregueses e esquece doença”, afirma Lilia das Couves, apelido que recebeu por estar sempre picando a hortaliça, uma marca registrada da loja dela. “O pessoal já liga antes de chegar avisando que quer couve picada”, observa.

O que também une os três lojistas é o fato de nunca terem outra profissão na vida. O negócio de Tião, hoje com 72 anos de idade, sempre foi biscoito. “Fiquei três anos pagando prestação para poder ter a minha loja aqui, onde trabalhava como empregado. Comecei do zero, com 12 tipos de biscoitos. A cada semana, com o que ganhava, comprava mais dois. Hoje tenho mais de 200 tipos”, destaca. 

Nesta época de Natal, Seu Tião é muito procurado por suas castanhas, ameixas e damascos. “Não vendo castanha quebrada; tem que ser tudo inteirinha”, avisa. Naná lembra de uma época áurea, em que não havia supermercado ou shopping. “Vinha todo mundo para comprar aqui. Aqueles lados de lá (onde está hoje o BH Shopping) eram tudo mato”, registra.

Stochiero, que faz parte de uma segunda geração à frente de um açougue, tem na ponta da língua um aspecto que diferencia os lojistas do Mercado do Cruzeiro dos demais: eles eram feirantes, tendo trabalhado nas feiras livres da cidade antes de assumirem um espaço no mercado. “A cultura do feirante faz toda diferença e é o que torna o mercado um lugar especial”, afirma.