O cinema tem ajudado a reforçar a ideia de que o amor ideal é coisa do passado, com as maiores provas de sentimento verdadeiro mostradas na ausência. Entre elas está a falta de comunicação, em que as distâncias surgem maiores e o tempo passa de forma menos acelerada, no compasso da espera que se exige dos casais apaixonados.

Assim como em “Tarde Demais para Esquecer” (1957), clássico do cinema romântico, em que a falta de um meio de contato instantâneo e um desencontro quase põem a perder o aguardado enlace, “Brooklyn” também não poderia se localizar em outro tempo que não na primeira metade do século 20, quando não havia internet, e-mail ou celular.

O filme do diretor John Crowley trabalha a dor da personagem Ellis (Saoirse Ronan) a partir justamente da distância. Num primeiro momento, quando ela deixa sua terra natal, a Irlanda, para tentar a sorte em Nova York (EUA), perfazendo os caminhos de quem enfrenta uma cultura diferente e abandona os referenciais familiares. Depois, já acostumada ao novo lar, vendo-se obrigada a retornar para o outro lado do Atlântico.

Embate interior

Paralelo ao sofrimento por aquilo que é deixado para trás, em cada país, há também a culpa. De largar a mãe e a irmã para viver sozinha na terra dos sonhos, principalmente. Grande parte da trama é dedicada a esse embate interior.

Ao contrário de outros filmes, que exibem jovens estrangeiras e ingênuas que são enganadas, a cidade pode ser grande e exigente, mas o inimigo está no interior de Ellis.

Ela custa a se desvencilhar do medo e, quando isso acontece, motivado pelo amor, a sensação de conforto logo é retirada, precisando fazer escolhas. Em “Brooklyn”, a transposição do mar passa a ser indicativo dessa necessidade. Sempre, ao atravessá-lo, a protagonista está fazendo uma opção para a sua vida.

Mas a produção não está apegada ao passado no que se refere a maneira de retratar a mulher. Mesmo nas personagens mais feministas do cinema clássico, elas não tinham direito à escolha. No máximo, tinham que se decidir entre duas opções contrastantes – uma boa e outra ruim. Não é o caso aqui. Daí reside a sua vitalidade, pois qualquer uma delas seria perfeitamente justificável.

Filme registra a primeira cirurgia de mudança de sexo

Em muitas sequências de “A Garota Dinamarquesa”, os personagens são observados por espelhos ou imagens difusas, como uma maneira de reforçar o passo que o pintor Einar está prestes a dar em sua vida: após descobrir que está num “corpo errado”, ele resolve fazer uma cirurgia de mudança de sexo, nos anos 20.

Esses artifícios também servem para criar um outro ponto de vista, a partir da esposa Gerda. Ao mesmo tempo em que se vê gradativamente perdendo o marido, ela continua presente como a única pessoa capaz de entender o processo de transformação pelo qual ele passa, ajudando-o a enfrentar os preconceitos.

O diretor Tom Hooper já havia usado esse mesmo expediente em “O Discurso do Rei”, em que a vitória do príncipe inglês George sobre a sua gagueira estava apoiada na esposa Elizabeth, quem lhe propõe um fonoaudiólogo. Em “A Garota Dinamarquesa”, é Gerda quem leva Einar ao médico que o libertará.

Curiosamente, as mulheres são fortes e práticas, masculinas até. Enquanto os homens são frágeis e estão prestes a mudar o rumo de suas vidas. Coincidências que se somam ao fato de serem duas histórias baseados em casos verídicos ocorridos na mesma época, nas primeiras duas décadas do século passado.