São oito espetáculos em duas décadas de Luna Lunera. Parece pouco, mas quem conhece o trabalho do grupo teatral mineiro sabe o quanto de suor e introspecção foi envolvido em cada um desses processos, o que faz deles tão singulares – além de premiados e aclamados por crítica e público.

“É o tempo de amadurecimento. Todos eles partiram de processos longos de investigação e pesquisa”, registra Cláudio Dias, membro fundador da trupe, que se conheceu na escola de teatro da Fundação Clóvis Salgado, onde realizaram a peça “Perdoa-me por me Traíres”, baseada em Nelson Rodrigues.

“O espetáculo resultou em algo tão potente que nos fez querer continuar juntos, para o processo de investigação não parar”, lembra. A peça que levou à criação do Luna Lunera, em maio de 2001, não está presente na mostra celebrativa que terá início neste sábado, no canal da companhia no YouTube.

Até outubro, gravações de apresentações, leitura dramática, lançamento de livro e curta-metragem marcarão as festividades. Além de “Perdoa-me por me Traíres”, também estão de fora da programação “Não Desperdice sua Única Vida ou” e “Cortiços”. Uma das razões é que elas ficaram “no tempo”, em que os discursos dizem mais respeito ao momento em que foram encenadas.

“Elas ficaram no tempo e o grupo, de alguma forma, andou”, sintetiza Dias. Apesar desse distanciamento, eles foram importantes para o Luna, dentro de um processo em que a fisicalidade ganha evidência. “É difícil identificar pontos em comum, estando lá dentro. Além da fisicalidade, outro ingrediente fundamental é o entendimento do humano e suas relações”, analisa.

O público também tem participação importante na confecção dos espetáculos. Ainda quando estão numa fase embrionária, pessoas próximas são convidadas para acompanhar, no que os integrantes chamam de processo observatório de criação. A partir dele, mudanças podem ocorrer em sua construção.

“O processo é abalizado por esse diálogo com o público, com a gente sempre avaliando as informações que vão chegando. Já aconteceu de sentirem falta de uma determinada cena e a inserirmos novamente por percebermos que, a partir daquela opinião, ela tinha uma importância”, exemplifica.

Cláudio Dias faz questão de frisar que é um processo de escuta e que as mudanças não acontecem apenas para agradar o público. “Não abandonamos a provocação. Muitas cenas continuaram mesmo as pessoas não gostando, como as que têm nudez. Em ‘Aqueles Dois’, há alguns momentos assim e resolvemos manter. Se é importante para o contexto, continua”, assinala. 

Peça mais marcante do Luna, “Aqueles Dois” terá, além de sua exibição online, uma leitura dramática no dia 26, reunindo os nove atores que integraram o elenco do espetáculo, em momentos diferentes, desde a estreia, em 2007. “Foi um encontro bonito. A peça só tem quatro atores e foi muito interessante ouvir uma síntese dos outros lugares que os substitutos propuseram”.

Outra novidade é o livro baseado na peça “Urgente”, de 2016.  De acordo com Dias, o texto tem muita relação com o que acontece no país hoje. “Os personagens vivem em seus cubículos num edifício cheio de rachaduras, sem perceberem que está tudo desmoronando. É uma metáfora do Brasil. As reflexões que ele nos traz podem nos ajudar a reverter esse processo, que está iminente”, destaca.