Apesar de a música servir de título e ser uma espécie de mote temporal para o encontro de dois casais, o filme “Todas as Canções de Amor”, em cartaz nos cinemas, se ressente de uma relação mais intensa com as canções que deveriam fazer a narrativa a avançar.
 
Com exceção da sequência final, a trilha (com várias pérolas da nossa MPB) não consegue tocar além dos personagens. Ela não representa, na maior parte das vezes, mais do que um som diegético – apresentada dentro da cena, percebida pelos protagonistas.
 
A consciência dos quatro personagens em torno destas músicas, com elas simbolizando, artificialmente, as etapas da montanha-russa que é uma vida a dois, retira deste repertório a possibilidade de ter um significado também para o espectador.
 
Ao acompanharmos o primeiro casal (formado por Luiza Mariani e Júlio Andrade), que vive nos anos de 1990 uma crise em que nada é dito diretamente, a música nunca consegue preencher estes vácuos.
 
A ideia de ter um segundo duo (Marina Ruy Barbosa e Bruno Gagliasso), que casualmente acessa, nos dias atuais, uma fita K7 no apartamento recém-comprado, é promissora, criando a expectativa de uma leitura mais emotiva das canções.
 
Frouxidão
Sem conseguir nos ajudar a reconstruir a relação do casal do passado, o segundo par se torna um elo frouxo, com o roteiro evitando nitidamente estabelecer outros pontos de contato entre eles e que poderiam levar o filme a outros patamares.
 
Entre outros caminhos, poderia, por exemplo, adensar a curiosidade patológica da escritora interpretada por Marina, ruiva e certinha, em torno de uma mulher desconhecida, morena e provocativa, resultando num drama psicológico como em “Baseado em Fatos Reais”.
 
O filme também tem dificuldades com os personagens não-humanos, se podemos dizer assim. A fita K7 seria um tesouro escondido que abriria um portal temporal, mas parece não significar mais do que simples objeto de inspiração.
 
A descoberta da fita não impacta o segundo casal de forma mais viva, talvez pelo receio de assumir certos clichês dramáticos. Também por isso, as músicas contidas nela perdem valor sentimental – algo que foi construído com perfeição em “Aquarius”, ao se exibir a discoteca da protagonista.
 
Outro elemento desperdiçado é o apartamento, que, apesar de receber mais de 90% das cenas, não parece ser o mesmo lugar em que vivem os casais. Na melhor sequência, quando se mostra o prédio de fora, envelhecido em meio à metrópole, se diz em poucos segundos muito mais que os personagens em 90 minutos.