A Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) resistiu. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) readequou. A Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), de Itabira, reinventou. Todas estas entidades são realizadoras de tradicionais festivais de inverno. No ano passado, como mostrou o Hoje em Dia, as iniciativas já estavam, diante da crise financeira (e política), enfrentando dificuldades para se manterem de pé. Neste ano, a falta de aportes veio ainda com mais força. Tanto que um dos maiores do gênero, o Inverno Cultural da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), foi cancelado. Diversos artistas, contudo, têm se movimentado para que as ações supracitadas não deixem de acontecer.

Em 2015, a UFSJ havia anunciado que tinha angariado R$ 1,5 milhão – R$ 1 milhão a menos que em 2014. “Neste ano, produzimos materiais de captação de qualidade como sempre, iniciamos uma nova modalidade de arrecadação, por imposto de renda de pessoa física, diversificamos estratégias e meios. Mas não houve retorno e até mesmo os patrocinadores já ‘fixos’ não puderam apoiar nesta ocasião”, explica o ex pró-reitor de Extensão da UFSJ, Paulo Henrique Caetano, que credita o fato à crise financeira.

Para suprir a demanda, artistas da região se uniram e criaram o Festival de Inverno de São João del-Rei, que acontecerá de 16 a 24 de julho. “O tema será: ‘Não Deixe a Cultura Morrer...’, o que é muito propício”, comenta Caetano, acrescentando que, não fosse a iniciativa, esta seria a primeira vez que a cidade histórica ficaria sem um festival cultural neste período. A programação deverá ser fechada ainda nesta semana.

Ouro Preto e Mariana

A UFOP vive situação semelhante. De acordo com o pró-reitor adjunto de Extensão e um dos coordenadores do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes 2016, Rondon Marques, não foi captado nenhum patrocínio para a realização do evento. Neste ano, a ação somente será realizada devido à colaboração de artistas. “Recebemos mais de 100 propostas de artistas querendo vir sem cobrar cachê. Essa manifestação é louvável, mas não temos recursos nem para a estrutura mínima necessária para trazê-los”, lamenta.

“A arte é uma formadora de cidadania muito importante”, Rondon Marques, um dos coordenadores do Fórum das Artes 2016

Além do apoio de artistas, como a Cômica Cia. De Teatro, de Mariana, já confirmada, o projeto conta com esforços de empresários que cederão pousadas e hotéis para hospedagem das atrações e infraestrutura e equipamento de audiovisual para a adaptação dos espaços.

Com o tema “Resistência” – bem apropriado, diga-se de passagem –, o festival acontecerá de 8 a 17 de julho. “A resistência está, por exemplo, no que diz respeito a repensar o formato do festival, da arte em relação à cena política-econômica, ao evento permanecer mesmo nestas circunstâncias”, diz Marques, ao frisar que, desde que a UFOP assumiu o festival, o mesmo nunca deixou de ser realizado.

Ele lembra que, em 2015, cerca de 700 mil pessoas participaram da ação. Por estar bem mais enxuto, agora não são esperados nem 10 mil visitantes. “Além do impacto na economia, a não realização ou redução de eventos como este tira a oportunidade das pessoas de terem uma vivência cultural diferenciada”, considera.

OURO PRETO – Fórum das Artes costuma começar e terminar com cortejos pelas ladeiras

OURO PRETO – Fórum das Artes costuma começar e terminar com cortejos pelas ladeiras

Economia criativa em Itabira

Mesmo tendo a aprovação por leis de incentivo, o Festival de Inverno de Itabira, na região Central de Minas, não conseguiu a captação. Porém, usando de uma série de estratégias, a FCCDA realizará o evento pelo 42º ano consecutivo, de 1º a 24 de julho. 

Para atrair recursos, explica o superintendente interino da fundação, Marcos Alcântara, o evento foi transformado num meio de também fazer girar a economia da cidade. Para tanto, três editais foram abertos. Um deles buscou viabilizar um bar do festival – um empreendimento foi selecionado para investir na estrutura e contratação de artistas. 

Também com o apoio de artistas e instituições públicas locais, o Festival de Inverno de Diamantina começou nessa segunda-feira (28) e vai até o dia 31 deste mês. 

O segundo edital visou a parceria no setor de hotelaria, para hospedagem de artistas. E o terceiro, buscou fechar uma programação dentro de bares do município, que terão a missão de oferecer uma programação cultural de domingo a quarta-feira. “Com isso, descentralizamos o festival, pois haverá a participação de bares de vários bairros. Tudo será por conta dos empresários; o nosso papel foi o de fomentar”, diz Alcântara.

Houve ainda o apoio dos artistas, que estão cobrando um cachê menor. “Conseguimos o patrocínio da Vale de R$ 50 mil. Com ele, vamos trazer a sambista Aline Calixto, o humorista Saulo Laranjeira (que convidou Saldanha Rolim), o Mundo Livre S.A, entre outros artistas”, afirma. 

Os aportes foram completados com R$ 170 mil, provenientes da prefeitura de Itabira destinados à infraestrutura, segurança, promoção de oficinas, entre outras atrações. Ao todo, mais de 70 ações ocorrerão na cidade. “E ainda conseguimos, com o evento, gerar 500 empregos diretos e mais de mil indiretos, em meio a crise que vivemos”, pontua.

 

CACHÊ SIMBÓLICO – Aline Calixto se apresenta em Itabira

CACHÊ SIMBÓLICO – Aline Calixto se apresenta em Itabira

UFMG prioriza Festival de Inverno
Com cerca de R$ 700 mil – aproximadamente o mesmo montante disponibilizado em 2015 –, a UFMG promove de 15 a 23 de julho a 48ª edição de seu Festival de Inverno. O valor investido veio somente da universidade, já que, até o momento, não foi fechada nenhuma outra parceria. 

A coordenadora do evento, a professora Mônica Medeiros Ribeiro, credita a realização do festival à gestão da instituição, que mesmo passando por crise financeira, resolveu priorizar a iniciativa, por considerá-la mais que puro entretenimento. Ela lembra que o Festival já relevou grandes talentos do Estado como os grupos Corpo, Galpão e Uakti (que encerrou as atividades em 2015). 

“Como é uma atividade que promove o conhecimento e não apenas um entretenimento para as férias, estamos resistindo. Existe uma política interna que valoriza este evento como atividade acadêmica”, Mônica Medeiros Ribeiro, coordenadora do Festival de Inverno da UFMG

Apesar da falta de incentivo externo, segundo Mônica, o festival foi mantido mais ou menos no mesmo tamanho que em 2015, sendo necessário apenas alguns ajustes. “O Festival Jovem (para crianças) diminuiu pela metade, mas o número de oficinas aumentou. Cada professor dá a mesma aula em três localidades da Região Metropolitana. Temos menos aulas, mas estamos em mais regiões”, afirma. As inscrições para minicurso, aulas abertas e oficinas estão abertas no site sistemas.ufmg.br/eventos. 

ESPANCA! – Com o espetáculo “Real: Teatro de Revista Política”, o grupo é uma das atrações do Festiv
ESPANCA! – Com o espetáculo “Real: Teatro de Revista Política”, o grupo é uma das atrações do Festival de Inverno da UFMG

Festival de Inverno de BH e FCS trazem grandes nomes a preços populares

Marcado para acontecer nos dias 16 e 17 de julho no Parque das Mangabeiras, o Festival de Inverno de BH também não angariou grandes recursos. Mas, com cerca de R$ 370 mil captados via Lei Estadual de Incentivo à Cultura e R$ 30 mil via parceiros empresariais, o evento conseguiu abarcar na programação nomes como Vanessa da Mata, Tiago Iorc e Mart’nália. 

Segundo um dos organizadores, Marcelo Martins, apesar de estar bem maior em comparação a 2015, quando estreou, algumas ideias ficaram de fora. “A gente queria trazer alguns artistas internacionais, mas não conseguimos”, diz. 

Com o tema “Sinta o Vento”, a proposta é a de promover um intercâmbio entre artistas renomados e regionais. Por isso, oito bandas de BH foram selecionadas e outras mais conhecidas fora do Estado foram convidadas – a exemplo da BaianaSystem, da Bahia. 

Vanessa da Matta – Cantora se apresenta no Festival de Inverno de BH, no Parque das Mangabeiras
Vanessa da Matta – Cantora se apresenta no Festival de Inverno de BH, no Parque das Mangabeiras

Inverno das Artes
A Fundação Clóvis Salgado (FCS), por sua vez, realiza a 2ª edição do Inverno das Artes, de 1º de julho a 1º de agosto. Entre os destaques, está o cantor Gilberto Gil, confirmado para o dia 31, no Grande Teatro do Palácio das Artes. A abertura será nesta sexta com o Coral Cidade dos Profetas, na Sala Juvenal Dias, e Filipe Catto e Cida Moreira, sábado, no Grande Teatro. A valores acessíveis, os ingressos já estão à venda.

De acordo com o presidente da FCS, Augusto Nunes, o objetivo do festival é oferecer atividades culturais de qualidade nesta época do ano, marcada pelas férias. Nesta edição, o evento faz uma viagem histórica que se inicia no barroco, na sua ressignificação pelo modernismo, na antropofagia, na vanguarda paulista e nos desdobramentos contemporâneos herdeiros dessa linhagem artística.

Nunes afirma que houve uma demora em divulgar a programação devido à burocracia. “Foi um sufoco; acabamos de assinar o termo de parceria. (...) Mas o que me compete é puxar o freio para se gastar o mínimo possível, para, quiçá, a gente poder fazer outra coisa depois (se sobrar)”.

Gilberto Gil

CONSAGRADO - Gilberto Gil é o destaque do Inverno das Artes, da Fundação Clóvis Salgado

 

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