Maíra Góes tenta se lembrar do nome de sua personagem no game “League of Legends”. Sem conseguir, ela solta o bordão de outro personagem: “Oi, eu sou a Dory!”. Um dos trabalhos mais marcantes da dubladora mineira, o peixe amnésico, protagonista da animação “Procurando Dory” (2016), tem muito em comum com a sua voz brasileira.

“Eu me esqueço também. Após meus amigos assistirem o primeiro filme (‘Procurando Nemo’, de 2003), eles me ligavam para falar: ‘Maíra, como a Disney sabia que você era assim mesmo?!’”, diverte-se a dubladora, que não tem dúvidas sobre o que Dory representou para a carreira dela. “Foi uma experiência incrível! Uma grande oportunidade na minha vida até hoje!”, assinala.

Maíra nasceu em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, e aos 18 anos foi tentar a sorte como atriz no Rio de Janeiro. Foi lá que descobriu a dublagem, durante a participação de um curso livre. “Eu amava o teatro, mas a dublagem me pegou de um jeito... Era muito difícil entrar no mercado, ainda é, e me dediquei muito”, lembra.

Conhecer o povo
Na Herbert Richers, lendário estúdio carioca, chegou a passar um dia inteiro, entre 8h e 22h, só para “ficar sentada lá, vendo e conhecendo o povo”, muitos deles vozes que marcaram a infância dela na frente da televisão. Eram outros tempos, em que os profissionais gravavam todos juntos. Hoje a tecnologia permite que façam de forma separada.

Maíra ainda se recorda do dia em que passou a ser funcionária da Herbert Richers. “O que me fez ser contratada foi uma novela mexicana do SBT. O Silvio Santos pediu novos testes e, quem passasse, seria contratado. Fiz bem caprichado e passei no teste. A partir dali, em 1999, eu segui na dublagem, sendo contratada também na VTI-Rio”.

Os dois estúdios, que já não existem mais, se tornaram grandes escolas para a atriz. O ano mais marcante na trajetória dela foi 2003, quando chegaram aos cinemas “Procurando Nemo” e “Piratas do Caribe”. Curiosamente, o segundo também é da Disney, em formato live action, e representou o primeiro encontro com a atriz inglesa Keira Knightley.

“A Keira começou muito cedo e eu fui com ela, que é mais nova do que eu, inclusive. Fez muitos filmes de época (em ‘A Duquesa’, ela foi muito bem), e mais recentemente atuou num contemporâneo que eu dublei, chamado ‘Segredos Oficiais’. Espero que ela tenha uma vida longa no cinema e que o distribuidor sempre me queira. Ou Keira”, brinca.

MAIRA

O marido Marcelo Garcia e a filha Manuela, hoje com seis anos, também são dubladores

Dubladora criou o seu próprio estúdio no Rio de Janeiro

Maíra Góes estava trabalhando em outro desenho da Disney, “Planeta do Tesouro”, quando o diretor de dublagem Garcia Júnior lhe chamou para fazer, naquele mesmo dia, um teaser de uma animação que seria inserido no VHS de “Monstros S/A”, com lançamento em 2003.

“Era bem curtinho e não dava para entender muita coisa. Quando  vi a mixagem, percebi que seria uma grande produção. O Garcia Júnior me falou que, quando a produção chegasse, ele me botaria para fazer o teste. Desta vez, a escolha foi lá nos Estados Unidos. Tive sorte e me escolheram”, lembra.

Ela observa que não busca imitar a voz dos dubladores originais. “A gente não pode mudar, mas temos que trazer para próximo de nossa realidade. É preciso ter essa adaptação, principalmente em desenho animado. A gente tem a referência de imagem e de áudio, mas não tentamos imitar a voz”.

Após ganhar muito experiência, ela investiu em seu próprio estúdio de dublagem, o Beck Studios, criado em 2011 ao lado de Sérgio Beck e Marcelo Garcia, marido de Maíra e também dublador –faz a voz de Relâmpago McQueen em “Carros”. Além de dublagem, produz audiodescrição e cursos.

“Está crescendo bastante. Eu até não quis ampliar tanto para conseguir dar conta de atender bem. Um amigo brincou certa vez que a gente tem estúdio de dublagem ‘boutique’. É um trabalho artístico que a gente faz numa agilidade grande, mas sem esquecer que é um produto artístico”, registra.

Híbrido
A pandemia interrompeu os trabalhos por um curto período. Logo buscaram soluções de gravação remotas, estimulando os profissionais a criarem o seu home studio. “Fizemos uma híbrido: dublagem remota para quem se adequou e, para quem não pôde ou não quis, gravando no presencial com protocolos de segurança”.

A pandemia também a fez encontrar tempo para realizar o sonho de sua filha, Manuela, de 6 anos, também dubladora, ao criar o canal “No Mundo da Manu”, no YouTube. “Em breve vamos lançar também a loja virtual. Estou muito envolvida na produção”, vibra Maíra com seu novo projeto.

Veja cena de Dory com a dublagem brasileira: