Mandando (muito) bem: as poderosas também dão show na cena sertaneja

Elemara Duarte - Hoje em Dia
24/01/2015 às 11:49.
Atualizado em 18/11/2021 às 05:46

Seguuuuuuura, mulherada! A música sertaneja, enfim, abre as porteiras para a voz das mulheres. Depois da mineira Paula Fernandes, que pegou o mercado nas unhas com o vozeirão dela e músicas autorais, agora, várias intérpretes chegam para diversificar o gênero quase só “deles”.  
Muitas soltam a voz na boate lotada de zona sul ou arrebanhando milhões de fãs em visualizações na internet. Ou mesmo, em dupla, com banda, compondo e fazendo mesclas do tradicional com o rock, o pop, música eletrônica e até black music.
“É bom misturar”, defende a cantora e atriz Rachel Antonini (foto acima). Há quase um ano, ela lota a casa de show West Pub (rua Bárbara Heliodora, 123, Lourdes), todos os sábados. O público procura o sertanejo-pop da loira de corpo malhado para dançar. Brindes com espumantes são feitos na pista e nos camarotes ao som contemporâneo do sertão que ela entoa.     Bruna e Keyla - Dupla mineira venceu concursos na TV
Mas Rachel diz que o show que faz contagia tanto o público de elite quanto o do interior, onde se apresenta em praças públicas. Ponto para a habilidade do sertanejo, gênero que não está nem aí para a discriminação por classe social.
E é sobre estes “reis do camarote” que a música de trabalho de Rachel fala: “Veste a blusa listrada, a calça importada,/ Se arruma no espelho e vai pra balada./ Chega de carrão e chama a mulherada pro seu camarote”. Hoje, às 22h, na mesma boate, a cantora grava CD promocional com 34 músicas durante a apresentação. A faixa que ela compôs estará entre vários covers de sertanejo com toques do pop nacional e de bandas internacionais, como a Jamiroquai.
Para Rachel, a romântica Paula Fernandes é uma referência, mas no sentido de não ter medo de “conquistar o mercado”. Por isso, ela diz que se sente realizada com o sucesso na área nobre da capital mineira, porém, prevê, “é um primeiro passo”.
Quem também é adepta das misturas é a cantora Gabi Luthai. A artista – nascida em Araxá e radicada em São Paulo – reúne mais de 65 milhões de visualizações de suas interpretações de sertanejos e de canções pop na internet. Há alguns meses, a determinada garota, hoje com 21 anos, garantiu contrato em escritório de produção onde Michel Teló é sócio, e com a Sony. Na gravadora, ela lançou um disco e prepara outro, com canções que vão ser conhecidas em meados de março.
A alavancada na carreira, porém, ela deu sozinha, do quarto, gravando canções com voz e violão, em casa, com seu jeito de menina mineira meiga, mas com a potência vocal e a dedicação de uma grande estrela.
Traquejo com as rede sociais e um fiel grupo de amigos que a compartilhava também ajudaram no processo. “Antes eram dois vídeos por ano. Conseguia 10 mil visualizações em cinco meses. Hoje, consigo esse público em algumas horas”, conta ao Hoje em Dia, sobre a repercussão de seu “sertanejo urbano”.   ‘Coloco minha feminilidade a favor da música’, afiança Nolli
Em grupo, as “sertanejas” também marcam presença. Desde 1998, Nolli está na banda Chaparral. Entre idas e vindas com carreira solo, o grupo encara trabalho autoral com levada country music. Nolli entre os demais componentes homens, chama a atenção. “Coloco minha feminilidade a favor da música. Há, ainda, um homem no vocal, e nossas vozes combinam muito”, explica.
Ela transforma para si uma frase popular no universo sertanejo masculino, que orgulha-se em dizer que é “bruto, rústico e sistemático” (leia-se a dupla João Carreiro e Capataz). “Sou brava, feminina e sedutora no palco”. A banda mineira já caminha quase que exclusivamente fora de Minas Gerais. O auge foram as turnês pela Austrália e Europa no último ano. Para este ano está agendada turnê na “terra da bota”. DVD gravado em BH também está nos planejamentos, para o segundo semestre.
Maria Bunita   Outra banda que coloca o pé na estrada sem medo é a Maria Bunita. Made in Minas também, o grupo reunido em 2010 defende o posto de ser a única banda “exclusivamente” feminina do Brasil. São oito morenas que tocam, cantam e compõem, porém, com o figurino sertanejo suavizado, mais roqueiro. “A banda inteira já foi pedida em casamento”, diz a guitarrista Ana Lopez. Segundo ela, os namoros ficam meio interrompidos coma vida “na estrada”.
Sem ‘Botona’ e sem franja
Além de sertanejo, a banda toca pop. E por isso... “Não tem razão para a gente usar botona e franjas”. A guitarrista diz que cada uma das integrantes veio de uma escola musical, mas que o sertanejo sempre foi o gênero “ouvido em família”.
E lá vão elas, em uma Van, para mais um show. “O grupo funciona bem. Quando alguma está de TPM é que é mais difícil”, brinca.
Para montar a banda com o perfil inédito, as primeiras integrantes precisaram procurar musicistas em escolas de música. “Queríamos mulheres que tocassem bem e que quisessem tocar ritmos sertanejos. Mulher toca Chico Buarque, mas não toca Fernando e Sorocaba. Por mim, está bom. Somos inéditas”. A Maria Bunita já tem um CD no mercado e, neste ano, pretende lançar um DVD e um CD autoral. “A gente não vai cantar cover o resto da vida”, assegura a guitarrista.   Marido gerente de banco ou maestro, o aval ‘era’ deles
Comentário de um fã no Facebook de Gabi Luthai, sobre uma foto dela na banheira: “Vem jantar aqui em casa hoje?? tem feijão, arroz e ovo” (sic). Gabi: “Se tiver uma carne junto eu topo :))))) aliás, o q eu mais amo comer é arroz com feijão, pode preparar essa janta aí!” (sic). É fato: o “xaveco” não as intimida. Tudo é recebido com uma certa diplomacia. “Eu que posto as minhas coisas. Não abro mão”, diz Gabi.   BUNITAS - O single traz sete marias no refrão: Bethânia, do Carmo, Dasdé, Fulô e Maria Bunita", diz a guitarrista Ana Lopez  
Mas nem sempre a postura das estrelas com o público foi tão bem resolvida assim. O maestro paulista Mário Campanha é casado há 33 anos com Mary, da dupla As Galvão, outras resistentes do gênero. Juntas, elas comemoram 70 anos de música sertaneja neste ano. “A gente trabalha na mesma profissão, fica mais fácil. Pegue um cara que é gerente de banco. O fã vai e grita: ‘Oh, gostosa!’ É difícil de aceitar”.
É por essas e outras, conclui ele, que mulher atuando no sertanejo sempre foi muito difícil. “Além disso, musicalmente, a mulher não ‘consumia outra mulher’. Mas isso mudou muito. Era uma espécie de machismo”, avalia.
Campanha lembra que, no século passado, as primeiras vozes femininas do sertanejo no Brasil fizeram sucesso por estarem em dupla, mas com homens. Ele cita o casal Cascatinha e Inhana. “Cascatinha” era Francisco dos Santos e “Inhana”, a mulher dele, era a cantora Ana Eufrosina da Silva. A partir dos anos 1970, outras raras vozes despontaram por aqui: Nalva Aguiar, a compositora Fátima Leão e As Marcianas. O maestro produziu quatro discos de Roberta Miranda – uma das poucas fortes representantes do gênero até os anos 2000, além de discos das Galvão. O maestro ainda é arranjador de vários cantores sertanejos, como Daniel.

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