Estreia de amanhã nos cinemas, “Marés” é um filme deslocado de seu tempo. Numa época em que se abordam grandes acontecimentos sociais e políticos ou busca-se o inusitado, particularmente em termos de linguagem, falar sobre os efeitos do alcoolismo na vida de uma pessoa pode soar um tanto anacrônico, nos remetendo a “O Ébrio” (1946), melodrama protagonizado por Vicente Celestino.
 
Mas esse sentimento de esperar por algo que pode resultar piegas, numa chave hoje mais apropriada à telenovela, é que torna o longa-metragem especial. Prova disso está na abertura, quando “Marés” ensaia uma ponte política com a história do fotógrafo Valdo, que deixa claro que os gritos contra o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, asseguraram-lhe um pouco de sobriedade.
 
A turbulência política no país ronda a trama, passada em Brasília, mas de maneira muito elíptica. O diretor João Paulo Procópio pega emprestado mais a sensação de vazio, de nau sem rumo. Neste sentido, é muito simbólico o quadro afixado na parede da casa de Valdo, em que vemos um senhor caminhando contra a força das marés, sob um céu carregado. Viver é muito complicado.
 
E justamente por trazer este olhar que o roteiro foge ao clichê do tema, evitando condenar o comportamento do fotógrafo para depois apontar para o caminho da superação sem álcool. A narrativa não é linear, ao contrário do que se poderia esperar. Valdo vive momentos de retrocesso e avanço (para vencer o vício), sem nunca isso se tornar um problema para o desenvolvimento do arco dramático.
 
O diálogo de Valdo é com ele mesmo, em cenas com muitos silêncios geralmente assinaladas pela presença da água em movimento, como as marés em seu vaivém. Elas podem trazer algo de volta, como a ex-esposa Clara, ou não. Esse olhar para dentro também se evidencia na ambientação. No lugar das grandes construções da capital federal, a casa espaçosa do personagem é que se torna incômodo.
 
Embora não lhe faltem amigos e namoradas ao redor – aparecem e desaparecem rapidamente –, Valdo se ressente da ausência de um pilar representado pela ex. Sentimentos contraditórios (e muito humanos) que são levados até o final, em que vemos o protagonista entre duas janelas fechadas, aparentemente sem saber qual deve abri-la.