A filósofa e escritora Marcia Tiburi não tem dúvidas: um dos sentimentos mais difíceis de ser superado é a dor pela humilhação, gerada, muitas vezes, numa escala tão ampla que ganha ares até de normalidade. Com o recém-lançado livro “Complexo de Vira-Lata” (Editora Civilização Brasileira), a autora busca encontrar os elementos históricos que estabeleceram certas posições injustas na sociedade, dividida entre opressores e humilhados.

Tiburi mostra que fazer o outro se sentir inferior pode se transformar numa ferramenta de poder –o chamado psicopoder – tema que reacendeu com a ascensão da extrema-direita no mundo, que não tem vergonha de defender preconceitos, classes sociais e o ódio como resposta ao que é diferente. A própria autora foi vítima dessa situação, ao ter se exilado na França após virar alvo de fake news e ter sua integridade ameaçada.

Professora de Filosofia da Universidade Paris 8, Tiburi encontrou no exílio uma nova inspiração: as artes plásticas. É dela a ilustração da capa do livro, um cão que olha para nós, leitores, de uma forma meio acanhada, referência ao famoso termo cunhado pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, “complexo vira-latas”, após a derrota do favorito escrete brasileiro para os uruguaios, na final da Copa do Mundo de futebol, em 1958, diante de um Maracanã lotado.

“É a imagem de um vira-lata caramelo, amado pelos brasileiros. Eu quis apresentar um vira-lata com seu indefectível olhar de cão abandonado e, como diz o Nelson Rodrigues, que se deixa tratar por pontapés. O vira-lata é um emblema da subjetividade nacional. Algo sobre o que precisamos refletir amplamente”, registra. Para ela, só poderemos vencer essa cultura da humilhação sabendo como ela funciona. “Não há chance de superar isso sem conhecimento e esforço prático de superação”, assinala.

Em outros tempos, um presidente xingar uma jornalista ou qualquer outro indivíduo em público seria malvisto. O que aconteceu para haver essa mudança? A cultura do ódio, da humilhação, no caso do Brasil, estava apenas adormecida ou foi construída nos últimos anos?
Ódio e humilhação estão entrelaçados. Enquanto o ódio é um afeto ou um sentimento manipulado, a humilhação é uma espécie de método. Uma verdadeira tecnologia política disponível ao longo dos tempos nos jogos de poder que estruturam as sociedades. Há épocas em que esse método está menos evidente. Na presente vida política e vida cotidiana, a humilhação voltou a ser muito importante. Ela se tornou uma tática. Que um presidente a utilize é algo abjeto. Mas ao mesmo tempo, podemos nos perguntar se não foi um profundo sentimento de humilhação – o que vem sendo chamado desde 1958, a partir da crônica de Nelson Rodrigues – que levou à eleição dos políticos que vemos em cena hoje. Se os brasileiros estivessem vivendo uma fase de amor próprio não teriam eleito Bolsonaro.

Estamos falando não só de Brasil, mas de um fenômeno mundial. O que leva pessoas a invadirem instituições sólidas como o Congresso Americano?
Se trata de um fenômeno mundial orquestrado. A extrema-direita está em ação em campanhas publicitárias nos mais diversos países. Trata-se de um plano de poder que visa eliminar as democracias, pois elas não ajudam em nada no que concerne aos interesses dos grupos extremistas de direita. No caso do congresso americano, foi uma espetacularização com o objetivo de forçar o poder e agradar um certo público movido pelo espetáculo da força bruta. Mas esse tipo de tática é usada no Brasil mais do que nunca. Dessa tática depende a sustentação do que venho há anos definindo genericamente como fascismo.

Quais são os limites do psicopoder? Como ele pode ser “vencido”?
A reflexão crítica é o limite do psicopoder. Ele só pode ser vencido por esclarecimento, educação, lucidez, análise, coragem teórica e epistemológica, construção de uma sensibilidade voltada para o respeito ao outro, mais ética do raciocínio e do diálogo. Tudo isso que compõe a reflexão crítica. Sem isso, não há futuro. O fascismo devora corações e mentes e não há arma contra isso senão a reflexão crítica que é tratada pelos fascistas como seu principal inimigo.

Quais compensações emocionais que a cultura do ódio pode trazer?
O fascismo é a compensação emocional dos ressentidos. Tornar-se um fascista significa ter aderido à tendência dominante e sentir-se parte de uma comunidade de ódio. Aquele que odeia se sente superior. Daí a sua capacidade de humilhar aqueles que ele considera que são inferiores. Para que isso aconteça, essa inferioridade precisa ser inventada no sistema e interiorizada pelos indivíduos. Ao mesmo tempo, o cidadão que humilha, aceita se colocar em um jogo de humilhação e ser humilhado por outro. Por isso, tantos indivíduos se entregam ao fascismo, mais precisamente ao líder fascista, que é o rei da humilhação. Aquele que humilha mais. Temos um excelente exemplo entre nós.

Quando estimulamos uma sociedade ou grupo ao reforçar o caráter competitivo, também estaríamos incentivando uma forma de humilhação? Afinal, para vencer, precisa haver um derrotado.
Certamente. Uma sociedade de vencedores e vencidos é um dos principais princípios do neoliberalismo. Não é a toa que o neoliberalismo está em alta. Ele anda junto com o fascismo. Note que derrotado o fascismo de Trump nos EUA, o Estado americano começou a mudar um pouco o tom para com a sua própria população, de um capitalismo sem limites para um novo papel do Estado ligado ao bem estar social.

A respeito do estupor, que você destaca no livro como uma resposta de paralisia à cultura da humilhação, foi esse sentimento que marcou os primeiros meses do governo Bolsonaro, já que as instituições pareciam sem reação nos instantes iniciais?
Bolsonaro colocou a todos em estado de estupor em 17 de abril de 2016, quando ele abriu caminho para um êxtase/pânico. O seu discurso, que já analisei em livros tais como o “Como Derrotar o Turbotecnomachonazifascismo” (Record, 2020), dividiu a população em dois grupos: os que enfrentam o medo e tentam derrotar o algoz; e aqueles que o seguem, embora também estejam tomados pelo pânico. A questão é o estado de êxtase, de hipnose. Há a estratégia psíquica da mimetização, ou seja, de se tornar igual ao líder emitindo uma mensagem pela qual se quer informar que se está do seu lado. Daí o papel do discurso de ódio, mostrar ao líder que se está do seu lado.

Você fala que a humilhação é uma tecnologia política e imediatamente me veio à mente o uso de redes sociais para disseminar fake news contra candidatos e figuras públicas. Após algumas ações do STF, acredita que essa é uma página virada ou ainda será uma estratégia a ser utilizada?
Eu sou uma vítima disso. Por isso, vivo fora do Brasil. Não tenho esperança de que isso pare tão cedo. Enquanto houver extrema-direita e jogos de poder, haverá fake news e campanhas de difamação, mais ameaças de morte e todas as violências que possam silenciar física ou discursivamente os opositores do regime. 

A humilhação como você coloca no livro parece entranhada na sociedade, em detalhe que mal percebemos. Um simples ato de xingar o juiz durante o jogo pode se tornar uma forma de humilhação. Essa busca seria utópica?
Sair da humilhação seria uma utopia? Não. Creio que podemos superá-la. Não de uma hora para outra, mas com políticas públicas e esforços culturais dos quais os governos não podem se furtar. É um esforço de todo um país, de toda uma cultura, que precisa ser levado a efeito. Mas para isso precisamos saber como funciona essa cultura da humilhação na qual estamos entranhados e enraizados. Não há chance de superar isso sem conhecimento e esforço prático de superação.