Foi preciso uma outra família representativa da classe média americana para desbancar “Os Flintstones” como a série de animação mais longeva da televisão. Durante mais de três décadas, desde que foi ao ar em 30 de setembro de 1960, no canal ABC, Fred, Barney, Wilma, Betty e Dino reinaram absolutos até a chegada de Homer, Marge, Lisa e Bart, de “Os Simpsons”.

Perto de virar sessentão,  o desenho criado pelos estúdios Hanna-Barbera foi um marco da TV, tornando-se o primeiro do formato a ganhar o horário nobre em rede nacional, além de apontar o caminho para a produção seriada de animação para atender a crescente demanda das emissoras, em que agilidade e baixo custo eram as palavras-chave.

“William Hanna e Joseph Barbera, que estavam na MGM, onde fizeram  ‘Tom & Jerry’, saíram de um orçamento de US$ 50 mil para US$ 2,7 mil. Eles reestruturaram o modo de produção, realizando o que ficou conhecido como limited animation (animação limitada)”,  registra Antonio Fialho, professor do curso de Cinema de Animação e Artes Digitais da UFMG.

Ele destaca que uma diferença estética gigantesca entre um “Tom & Jerry” e o novo modelo, com o primeiro levando meses para resultar num curta-metragem de sete minutos. “Era uma  animação super fluida, bem elaborada esteticamente, porque era feita para o cinema. Na TV, a animação se torna extremamente econômica do ponto de vista da construção do movimento”, analisa.

O segredo do sucesso  da Hanna-Barbera, que só tinha um ano de vida quando “Os Flintstones” foi lançado, era criar desenhos com menor número de movimentos. “É quase uma animação por substituição de peças.   São posições de boca já definidas para serem reusadas para vários fonemas. São piscadas de olhos que você usará outras vezes na sequência”.

 O corpo do personagem permanece fixo, sem movimentos, o que torna a produção mais rápida e econômica. “Animadores da Warner viam com maus olhos esta estética, dizendo que não era animação de fato porque se deveria reconhecer a figura por seus trejeitos, como a maneira de caminhar. Isso era  impossível de se fazer nos desenhos da HB, por causa do orçamento”, assinala.

O fato de Zé Colmeia - outro personagem famoso do estúdio –  andar igual ao Barney, por exemplo, não impediu que “Os Flintstones” fosse um grande sucesso. “O desenho tem essa brincadeira de pegar o subúrbio, a classe média americana, e colocar na Idade da Pedra, com os personagens se comportando como se estivessem civilizados. Há uma organização otimista que reflete muito do otimismo do pós-Segunda Guerra”.

Fialho sublinha que a voz era um diferencial importante neste tipo de animação. “Este tipo de  animação funciona muito bem para narrativa. Enquanto a sequência de movimentos era praticamente a mesma, o diálogo já  tinha um ritmo. Por isso o ator que colocava a voz tinha que pôr uma personalidade”, explica o professor, que é fã da voz de Barney feita por Mel Blanc. 

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