Trata-se de um exemplo típico da máxima "unir o útil ao agradável". Quando resolveu criar um desenho para grafitar pelas ruas da capital mineira, Maria Raquel Bolinho – sim, o sobrenome é artístico e mais do que compreensível, como se verá a seguir – pensou em algo com o qual se identificasse. E como sempre gostou de cozinhar e, principalmente, de fazer sobremesas e confeitar, a delimitação do território no qual iria transitar não foi tarefa das mais hercúleas.

"Na verdade, adorava fazer cupcakes para os meus amigos e, quando estava formulando o desenho, eles me vieram à cabeça como uma ideia obvia: além de deliciosos, também têm um apelo visual interessante", explica.

Desde então, pelas suas contas, Maria Raquel pintou mais de 300 bolinhos pela cidade. "Mas não sei quantos desses ainda estão de fato nas ruas. Muitas vezes, cartazes ou pintura de propagandas acabam fazendo desaparecer alguns grafites, e alguns bolinhos que pintei duraram poucos dias", diz ela, que, além de Belo Horizonte, já deixou seu traço por ruas de São Paulo e no Rio de Janeiro. "Fiz também alguns bolinhos no interior de Minas, principalmente em Itabira, que é minha cidade natal".

Mensagens de apoio

Aos 27 anos, Maria Raquel é graduada em Letras, pela UFMG. Trabalhou alguns anos como professora de língua portuguesa e inglesa. Atualmente, se dedica apenas ao projeto "Bolinho", aos trabalhos de pintura e à criação de produtos com a imagem deles (dos cup cakes).

"Meu objetivo é espalhar os bolinhos não só por Belo Horizonte, mas, quem sabe, até por outros países. Quero continuar trabalhando fazendo o que gosto, sem me preocupar muito aonde isso vai me levar", confidencia, ao melhor estilo Zeca Pagodinho.

O feedback aferido? "Bem, acho que o mais legal é o reconhecimento e o carinho que recebo das pessoas que gostam do (projeto) ‘Bolinho’. Pela internet, todos os dias recebo mensagens positivas e elogios que me motivam a pintar cada vez mais", festeja a moça.

Bem, cumpre dizer que as escolhas profissionais da mineira encontraram total apoio em sua família. "Todos gostam muito dos bolinhos e sempre me incentivaram, desde o começo. Eles adoram ‘fazer propaganda’ dos bolinhos e falam deles para todo mundo. Desde o começo, acreditaram no bolinho, até mais do que eu acreditava. E isso foi um grande incentivo".

Não que ela veja o seu traço como uma unanimidade. "Nunca recebi reclamações, mas acredito que existam, sim, algumas pessoas que não gostem ou que não entendam a proposta do ‘Bolinho’", diz, sem, no entanto, se deixar abater.

"As pessoas me reconhecem pelo desenho"

À medida em que ia pintando os cupcakes na cidade (em Belo Horizonte, eles já estão presentes em todas as regiões; chegar a Betim e a Contagem está nos planos da artista) e os desenhos foram se tornando mais populares, comentados, as pessoas passaram a identificar Maria Raquel com o projeto "Bolinho" – e a identificá-la assim. E, daí, "surgiu" a "persona" Maria Raquel Bolinho.

"No começo, meu desenho não tinha um nome específico, o ‘Bolinho’ surgiu à medida em que as pessoas foram se referindo dessa forma aos traços e se oficializou depois que fiz o registro de personagem. Como não assino meus trabalhos, as pessoas me reconhecem por causa do desenho e, desse modo, a palavra ‘Bolinho’ foi naturalmente sendo incorporada ao meu nome", conta.

Feito tatuagem

A paixão de Maria Raquel pelos cupcakes é tal que ela acabou tatuando um desenho de um dos bolinhos que mais gosta no seu braço. "Esse desenho eu fiz na rua, mas foi um bolinho que durou muito pouco: eles derrubaram o muro (no qual estava o grafite). Aí, resolvi tatuá-lo", diz, conformada com a "perda".

Maria Raquel reconhece que ainda são poucas as mulheres que grafitam pelas grandes cidades e, em particular, pela capital mineira – embora esse contingente esteja em franca expansão. "Mas as mulheres ainda são minoria nesse meio do grafite", lamenta, acrescentando, no entanto, que esse não é um fenômeno localizado, mas observado em todo o mundo.

Particularmente, ela diz cultuar artistas que fazem trabalhos que a inspirem e a motivem a pintar cada vez mais. "(Artistas) Que estejam menos preocupados com a técnica de pintura em si e mais com a atitude de pintar e a vontade de ocupar as ruas", delineia. Instada a citar alguns dos grafiteiros, ela crava um "x" no trabalho do norte-americano Keith Haring (1958– 1990), "que foi uns dos pioneiros do grafite". "Também gosto muito do Katsu, Remio, Gri7o, Lush e do Ether & Utah, entre vários outros", elenca.

Quanto à assimilação crescente das ditas "artes urbanas", ela credita ao "fato de o grafite ser uma forma de arte democrática e acessível a toda gente". A popularização do grafite, e o entendimento deste tipo de manifestação como forma de arte, também contribuiriam para o bom momento. "É comum, hoje, ver grafites na TV, seja em comerciais, séries, novelas... E à medida em que mais pessoas vão conhecendo, mais fãs vão surgindo", vaticina.