Dizer que Brian Warner não é um artista de sucesso é heresia, com o perdão da palavra. Quando abandonou o jornalismo musical e vestiu a alcunha de Marilyn Manson, nos anos 1990, o norte-americano decidiu que era hora de falarem dele e não o contrário. Meses depois, boom: na onda do nu-metal, Manson explodiu com seus temas satânicos, visual soturno, com arcabouço cênico, e sonoridade que passeia entre metal “industrial”, o eletrônico e o pop.

Em 2017, o “anticristo” segue nos holofotes com seu décimo disco de estúdio, “Heaven Upside Down”. O álbum marca um momento de maturidade musical e retorno às raízes, apesar da conturbada fase pessoal do artista, hoje aos 48 anos. É que no mês passado Manson foi hospitalizado após se acidentar durante um show. Pouco depois, veio a demissão do baixista Twiggy Ramirez, integrante mais antigo da banda, acusado de estupro por uma ex-namorada. 

Mas, cá para nós, dor, sofrimento, violência e revolta sempre cercaram o universo temático de Manson. E no novo álbum não é diferente: nas dez faixas, produzidas com capricho por Tyler Bates, Manson vocifera blasfêmias manjadas que dão a impressão de flashback. “O cara parou no tempo?”, fica se perguntando o ouvinte.

Amadurecimento

Contudo, se Manson empacou conceitualmente, avançou do ponto de vista musical, principalmente em termos de melodia. As transições entre berros e grunhidos para linhas vocais suaves e limpas se dá sem tropeço, como nas faixas “Tattooed In Reverse”, “WE KNOW WHERE YOU FUCKING LIVE“e “JE$U$ CRI$I$”, tudo assim, em caixa alta. Na trinca, é possível ver o retorno às raízes industriais de “Antichrist Superstar” (1996).

Outra trinca que surpreende é a de “SAY10”, “KILL4ME” e “Saturnalia”, que já trazem referências claras a “Mechanical Animals” (1998). As bases eletrônicas surgem na primeira, cadenciada e minimalista; continuam na segunda, BPMs a mais, house de pista, romântica do jeito bizarro de Manson; e explodem na terceira, techno acelerado e dançante, mas totalmente sombrio. 

Merecem menção, ainda, a faixa-título e “Threats of Romance”, que fecham o disco com linhas vocais melódicas e ambientações melancólicas. Ao fim, fica, porém, a impressão de que, diferente dos anos 1990, não há pérolas no repertório. Muitas são as músicas acertadas, mas nenhuma a ponto de marcar a memória. De toda forma, outra conclusão é latente: entre acertos e tropeços, Manson segue resistindo, como artista grande, para delírio de seus haters.