SÃO PAULO - Primeiro Degas. Depois, Renoir, Manet, Cézanne, Van Gogh, Modigliani. Por último, Vicente do Rego Monteiro e Candido Portinari. Nessa ordem, e em blocos estanques, o Masp abre neste sábado (7) a mais nova mostra de recortes de seu acervo com algumas das obras-primas do museu.

Estão lá as bailarinas de Edgar Degas, uma das peças-chave do impressionismo que traduz a ideia de composição fotográfica para a pintura, "O Escolar", de Vincent Van Gogh, as menininhas de vestido rosa e azul, de Pierre-Auguste Renoir. Na opinião do curador do museu, Teixeira Coelho, a ideia é que a nova disposição das peças provoque um "prazer descompromissado".

De fato, "Passagens por Paris", nome que batiza o recorte que restabelece o segundo andar do Masp como área exclusiva de sua coleção permanente, percorre um arco temporal que vai de 1866 a 1948, momento de formação e sedimentação da chamada Escola de Paris, da mesma forma como um flâneur passearia pelas famosas galerias comerciais da cidade na "belle époque", pinçando aquilo que convém ou que chama mais a atenção do olhar.

Nesse flanar pela coleção, surgem alguns momentos arrebatadores. O primeiro deles, sem dúvida, são as "Quatro Bailarinas em Cena", tela de Degas de 1885. É um assalto de modernidade -enquanto uma bailarina é decepada ao meio, com metade do corpo fora da tela, as demais e seus vestidos parecem se desprender dos contornos, com as cores deixando um rastro colorido na tela, da mesma forma que um objeto retratado em alta velocidade vira um borrão dinâmico numa fotografia.

Renoir domina o próximo bloco com uma série de retratos da luminosidade diáfana. Bochechas rosadinhas, vestidos ornamentados até não poder mais e interiores luxuriantes aparecem retratados no traço vaporoso do artista, em que os volumes parecem atravessados pela luz, mais ou menos densos aqui e ali.

Na série seguinte, Edouard Manet, talvez o que mais destoasse do conjunto impressionista por seus contornos mais rígidos e cores chapadas, segue a lógica da composição fotográfica com "A Amazona", obra de 1870, em que a figura central, uma mulher de preto a cavalo, aparece nítida contra o fundo de um bosque, em que as árvores se desmancham num turbilhão esverdeado.

Em ordem cronológica, Vincent Van Gogh, nome central do impressionismo tardio, domina a próxima sequência. Estão ali "O Escolar", uma das peças mais queridas da coleção do Masp, em diálogo com "A Arlesiana", outra tela icônica. Os dois retratos, o primeiro de 1888 e o segundo de 1890, mostram bem a pincelada grossa, forte e gestual do artista, que parece tratar o rosto aqui da mesma forma que delineia suas paisagens tortuosas, como em "Passeio ao Crepúsculo", tela de 1890, também na mostra.

E, como se a exposição preparasse o terreno para uma transição radical, Paul Cézanne, artista que fica no limiar entre o impressionismo e o cubismo que viria depois, tem três telas na sala seguinte. Uma delas mais do início da carreira, "Paul Alexis Lê um Manuscrito a Zola", de 1869, contrasta com as que vieram depois, "Madame Cézanne em Vermelho" e "O Grande Pinheiro", ambas de 1890.

Nas telas de sua fase mais madura, Cézanne começa uma verdadeira revolução, geometrizando sua visão de mundo, que esquadrinhava tudo em cilindros, cones e esferas, e aperfeiçoando sua técnica de fundir contorno e volume, com formas que parecem emergir sólidas e inteiras contra o pano de fundo, estruturadas só pela cor.
Já na última sala da mostra, essas inovações que tiveram Cézanne como embrião já aparecem traduzidas na obra do italiano Amedeo Modigliani, que vivia em Paris, onde criou suas figuras de rostos longilíneos e angulosos, sempre com um olhar "blasé", beirando a morte ou numa espécie de cisão entre corpo e alma.

Brasileiros que também viveram na capital francesa no começo do século 20, Vicente do Rego Monteiro e Candido Portinari também figuram na mostra. No caso de Rego Monteiro, com "Menino Nu e Tartaruga", de 1923, é visível a influência que sua composição teve do cubismo de Fernand Léger, com formas roliças, quase metalizadas, dando ares maquínicos à forma humana ao mesmo tempo em que aludiam à cerâmica marajoara.

Menos adepto do radicalismo das vanguardas parisienses, Portinari pintou "O Lavrador de Café", de 1939, já na fase de retorno à ordem do modernismo brasileiro, mas não sem exagerar partes do corpo do personagem de acordo com a exaltação ideológica do trabalho que então dominava suas composições de pegada nacionalista.